quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Como a Hercílio Luz não tem


Acabo de concluir a escrita de um de dois artigos resultantes da análise de 10 anos da cobertura jornalística do ND sobre a Avenida Hercílio Luz, quase 500 achados, e de oito saídas de campo realizadas ao longo de 9 meses. Nesse tempo, pude testemunhar as transformações cotidianas que vão dando nova cara para a rua: o fechamento e a abertura de comércios, os novos usos, como os patinetes, os novos usuários e usadores e as antigas sociabilidades, como os jogadores de dominó que todos os dias batem ponto na frente do “Paredão”. Flagrei o desaparecimento de um dos últimos orelhões do centro, também na frente do “Paredão”, fato para o qual minha atenção foi chamada graças a uma reportagem feita pelo jornalista Billy Culleton para o Floripa Centro e depois reproduzida no ND. Numa das saídas, vi que a galeria ao Sul, perto da Gustavo Richards, estava aberta, e fiquei um tempão observando e fotografando o Rio da Bulha. 

Cheguei a cinco boas conclusões.

Passo na Hercílio e pergunto aleatoriamente:

– Você sabe que aqui embaixo corre um rio?

Quase ninguém sabe.

Hoje mesmo fui até o Rio’s Bar, ali na frente do Clube 12, tirar uma dúvida, e descobri que em dezembro próximo ele completa 56 anos. 

Dizem que a Trompowsky é avenida mais charmosa da IIha. Ela tem árvores bonitas, prédios chiques e é pobre de sociabilidade. 

Como a Hercílio Luz não tem.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Debate nesta sexta (17) marca uma década das Ocupações Contestado e Amarildo de Souza


Nesta sexta-feira (17), às 19 horas, na UDESC, haverá debate para refletir sobre duas experiências que marcaram a luta urbana da Grande Florianópolis a partir de falas de seus moradores, apoiadores, pesquisadores e militantes.

Em novembro e dezembro, as Ocupações Urbanas Contestado, em São José, e Amarildo de Souza, no Norte da Ilha, completam 11 e 10 anos, respectivamente. Essas ocupações são experiências que iniciam o segundo ciclo de ocupações organizadas na Grande Florianópolis, conforme as pesquisas do professor Francisco Canella, da UDESC, e com elas os movimentos sociais locais se rearticularam pela luta por moradia. 

A Ocupação Contestado foi capa do número 29 da revista Pobres & Nojentas, lançado em dezembro de 2012. A reportagem de 5 páginas, assinada pela jornalista Marcela Cornelli e intitulada “Luta por terra e dignidade”, narra os fatos que levaram as famílias a ocupar e entrevista moradores e lideranças dos movimentos sociais. A revista pode ser lida neste link: http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/revistas/POBRES%20E%20NOJENTAS/PEN201229.pdf

A revista Pobres & Nojentas também cobriu a Ocupação Amarildo de Souza, que sofreu violenta repressão policial, judicial e midiática. Os dois vídeos são os seguintes:

• Ocupação Amarildo - Trabalho, terra e teto - https://www.youtube.com/watch?v=ZEPiPRD8Ml4

• Quando morar é um direito - https://www.youtube.com/watch?v=FR_-82JSinY&t=1s

Vai ser um bonito momento para relembrar essas duas grandes lutas por moradia e avaliar o caminho a ser percorrido de forma coletiva.

O evento é uma iniciativa do LABGEF da FAED/UDESC, Instituto Caeté e OcupaSC, em parceria com as ocupações e organizações políticas que atuam junto delas.


terça-feira, 14 de novembro de 2023

Três máquinas e uma faculdade


Flagro a cena e ela é boa para homenagear as três máquinas que me ajudaram a pagar a faculdade de Jornalismo: a de costura, a de overlock e a mãe. Na época, não havia Jornalismo na Universidade de Caxias do Sul, e assim iniciei o curso em 1990 na Unisinos, em São Leopoldo. Trabalhava como estagiária e depois contratada na extinta Folha de Hoje e, às 17h45, eu tinha que correr até a frente da Catedral, de onde saía diariamente o ônibus que levava os estudantes da Unisinos para as aulas. Voltávamos a Caxias perto da meia-noite e meia e eu, sozinha ou com o amigo Samuel, corria as quatro quadras até minha casa. No inverno era pior, e pior ainda quando havia neblina. 

Passados dois anos e meio, aquela rotina começou a me cansar e decidi morar em São Leopoldo. O pai não queria e, em meio às discussões, a mãe foi enfática: 

– João Flávio, deixa. Não adianta. 

Depois de ficar uns dias hospedada na casa de uma prima em Novo Hamburgo, achei trabalho e lugar para morar. 

Nos dois anos e meio seguintes, fui garçonete, repórter em jornal e estagiária na Petrobras e na Prefeitura de Porto Alegre. Consegui uma bolsa parcial de uma entidade privada e uma bolsa na Unisinos para digitar a tese de doutorado de um professor que havia usado máquina de escrever. Mas o dinheiro não dava.

Toda semana, a mãe enviava um farnel pelo ônibus: pão feito em casa, feijão, polenta, legumes, frutas, dinheiro e uma cartinha com novidades. Eu morava perto da avenida que levava até a Unisinos e corria até lá para buscar o farnel precioso. Os motoristas e os colegas já sabiam o ponto onde parar e fazer a entrega.

O pai, naquele tempo, trabalhava em escritório e a mãe costurava. As camisas dela era impecáveis. E sei que volta e meia ela pedia empréstimo ao querido tio José, que era gerente da Eberle, para poder me ajudar. 

Aposentada, ela tem nas máquinas um acréscimo na renda, e hoje faz reformas e costura por prazer enxovais de bebês que minha prima Tânia entrega para os projetos sociais dos Capuchinhos. E ainda borda, faz crochê, escreve e pinta. Quando vou para Caxias, ela avisa:

– Traz tuas reforminhas!

Ela diz que gosta de estar como a Terra, em movimento.

É, dona Eluci, eu pedalo, mas não te alcanço!

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Livro digital aborda a atualidade da obra do jornalista Marcos Faerman


Ficou pronto o livro digital “A atualidade da obra do jornalista Marcos Faerman”, com depoimentos e artigos resultantes do Encontro Virtual com o mesmo título organizado pela Produtora VU e Revista Pobres & Nojentas no dia 18 de abril de 2023 pelo YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=xlgjJTDf788

Marcos Faerman nasceu em 5 de abril de 1943 em Rio Pardo (RS) e faleceu em São Paulo em 12 de fevereiro de 1999. Passados 80 anos de seu nascimento, o objetivo do Encontro Virtual foi refletir sobre a atualidade de seu fazer jornalístico, que marcou época na imprensa brasileira. Faerman foi jornalista, repórter, editor, administrador cultural e professor. Viveu grande parte de sua trajetória profissional durante a ditadura militar que tomou o Brasil em 1964, e participou, como criador, editor e repórter, de importantes publicações da imprensa alternativa, um importante espaço de resistência ao regime autoritário. Escreveu mais de 800 reportagens para o Jornal da Tarde, durante 24 anos. Tornou-se conhecido pela prática do chamado jornalismo literário, gênero que faz uso de técnicas narrativas da ficção no relato de histórias reais.

A obra de Faerman está reunida no site www.marcosfaerman.com.br por iniciativa de sua filha Laura e seu filho Julio.

No Encontro Virtual, com abertura de Laura Faerman, cinco expositores e expositoras falaram sobre diferentes aspectos da obra do jornalista. Para o livro, com 48 páginas, três dos cinco expositores e outros três autores, totalizando seis textos, abordam a trajetória e a obra de Marcos Faerman, mais uma vez buscando demonstrar a atualidade do fazer de um dos maiores jornalistas do país.

São os seguintes:

“Marcos Faerman, caminhando na margem”, de Elaine Tavares; “Eu tive um amigo”, de Estela Bagnis;  “Marcos Faerman e a mochila Tiger onde parecia caber um universo”, de Leonardo Fuhrmann; “O espaço na obra do jornalista Marcos Faerman”, de Míriam Santini de Abreu; "O visionário Marcos Faerman!”, de Neusa Maria Pereira, e “Apenas um homem”, de Raquel Moysés

Confira no link, disponível no site do IELA!

https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/251611/Livro%20em%20PDF.pdf?sequence=1&isAllowed=

Sobre os livros impossíveis



Na odisseia pessoal que é escrever uma tese, sempre há um momento que fica como ápice do esforço sintetizado ao longo de quatro anos. O meu foi a busca por esse livro de capa amarela, “A construção do espaço social”, de Carlos Sánchez-Casas, com 92 páginas.

A primeira vez que li sobre ele foi na Introdução escrita por Emilio Martínez Gutiérrez para a edição em espanhol do livro seminal de Henri Lefebvre, “A produção do espaço”, presente que recebi em 2016 de minha orientadora, Gislene da Silva, na volta de sua viagem de estudos pós-doutorais na Espanha. Até hoje esse livro não foi traduzido para o português e as edições em francês eram caras e difíceis de conseguir. Li 18 livros e artigos escritos por Lefebvre e outros 7 por comentaristas de seu legado teórico, todos geniais, mas é certo que o caminho para a tese eu encontrei em “A produção do espaço”.
O fato é que, na citada Introdução, Gutiérrez discorre sobre a obra de Lefebvre e, em certo trecho, cita e resume a alienação urbana e afirma que segue o esquema proposto por Carlos Sánchez-Casas, indicando o livro na Bibliografia. Aquilo era fascinante! Com o título, iniciei a busca pelo livro. Nada! Nem um único exemplar em algum lugar acessível. E nenhuma citação do livro em outras teses e dissertações.
O autor, arquiteto e pesquisador, é espanhol. Descobri e-mails, enviei mensagens para ele, mas nada. Verifiquei que a Biblioteca da Universidade Complutense de Madri possuía um exemplar, e então pedi auxílio na Biblioteca Central da UFSC, que enviou mensagens para a UCM buscando viabilizar a leitura. Em função dos direitos autorais, informaram não ser possível fazer PDF do livro todo, mas de um capítulo sim, e anexaram uma imagem do Sumário para que eu indicasse em qual capítulo estava a parte de meu interesse. Eram 17 e eu não fazia a menor ideia. Frustração tremenda!
Mas não me dei por vencida. Enquanto pesquisava, lia e escrevia, me dividindo entre trabalho e estudo, toda sexta eu fazia uma busca para ver se o livro aparecia em algum sebo. Passados meses, um dia ele apareceu. Estava à venda em www.todocoleccion.net (onde agora tem mais um!), um sebo espanhol. Meus colegas de trabalho acompanhavam a saga pelo livro e o querido Maykon Lopes fez o pedido com seu cartão internacional, porque eu não quis esperar um minuto para liberar o meu para compra.
O livro demorou a chegar, passaram-se semanas, e então descobri que precisava pagar uma taxa de importação para liberar a entrega pelo Correio, onde ele estava depositado.
Quando recebi, foi uma festa, até bolo comemos no serviço. Acho que ninguém aguentava mais me ouvir falar do livro!
Pois bem. O livro todo é fantástico, mas a parte que me interessava, sobre a alienação urbana, está no capítulo sete e tem cinco magníficas páginas.
Valeu a pena? Sim! Graças ao arquiteto Carlos Sánchez-Casas eu consegui fazer uma ponte para, a partir da gigantesca teoria do espaço de Lefebvre, analisar a cobertura jornalística sobre ocupações urbanas, objetivo da tese. E essas cinco páginas estão me ajudando a pensar no tema de um dos meus próximos livros, sobre a teoria da reportagem.
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!

Artigo analisa a inflexão ultraliberal na produção do espaço em Florianópolis


Foi publicado em setembro, no número 58 do “Cadernos Metrópole”, do Observatório das Metrópoles, artigo escrito pelo arquiteto e urbanista Lino Peres, por mim e pelo cientista social Fernando Calheiros. O volume tem como tema “Crise climática, cidades e reforma urbana”.

O artigo que escrevemos, intitulado “Cidade à venda: inflexão ultraliberal na produção do espaço em Florianópolis”, analisa o processo de produção do espaço urbano na capital catarinense a partir da articulação entre Estado, capital imobiliário e imprensa tradicional para atender aos interesses dos grupos dominantes locais e facilitar a expansão imobiliária. Para isso, foi necessário o desmonte dos órgãos e instrumentos públicos de planejamento e de fiscalização pela via da reforma administrativa. O ápice foi a aprovação da revisão do Plano Diretor em maio de 2023, ignorando as demandas dos movimentos populares. Esse processo se beneficiou das esferas econômica, política e ideológica, definidas como as principais formas de controle do espaço urbano, sob a égide da cidade-empresa. Contrapondo-se a isso, a capital catarinense é campo de lutas sociais pelo acesso à terra urbanizada e pelo direito à cidade.

O artigo está em https://revistas.pucsp.br/index.php/metropole/article/view/53690/43097?fbclid=IwAR3aqkzPkauXMmQ38-L7GrJ4YL5uAO6bbG3_63pWU8OlyAmN7gLJFJA_kEQ

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Livro "Comunicação Sindical em Santa Catarina" está em produção


A Revista Pobres & Nojentas lançou em 2008 um caderno teórico de 36 páginas para discutir o jornalismo em sindicatos. Um atrevimento impresso para dar conta de um tema que debatíamos bastante nos nossos encontros. Passados 15 anos, vamos dobrar a aposta! 

A Revista Pobres e Nojentas e a Letra Editorial estão organizando um livro que terá como título "A comunicação sindical em Santa Catarina".  Em 2020, essa parceria da Pobres e da Letra possibilitou a impressão do livro "A rebelião do vivido no jornalismo independente de Florianópolis". Estou na organização com a jornalista Sandra Werle, que tem sua trajetória ligada ao jornalismo sindical.

Queremos divulgar as experiências de colegas que atuaram/atuam no jornalismo sindical no estado, buscando refletir sobre o nosso fazer a partir do olhar de cada um e de cada uma. Não há muitas publicações assim em Santa Catarina, de modo que o resultado será valioso neste período histórico, com novos e velhos desafios para a organização da classe trabalhadora. Vai dar bom!

Alisamentos noticiosos e rugosidades dos grupos de mídia de Santa Catarina

O sumiço de notícias e reportagens dos portais noticiosos da mídia tradicional de Santa Catarina não é novidade. Escrevi sobre isso em algum...