O sumiço de notícias e reportagens dos portais noticiosos da mídia tradicional de Santa Catarina não é novidade. Escrevi sobre isso em algum momento da pandemia de Covid-19. Os links quebram. Aparecem mensagens de erro. É um problema? Sim, porque temos apenas um jornal impresso de circulação diária na Grande Florianópolis, o ND+. Se os grupos de mídia não cuidam do arquivo digital, a memória do jornalismo catarinense não se entrega para o futuro.
Para a escrita de um artigo recente sobre a verticalização em Santa Catarina, pesquisei sobre notícias a respeito da Ocupação Amarildo de Souza, entre 2013 e 2014, cuja cobertura jornalística estudei em minha tese de doutorado no Curso de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC.
No NSC Total, basta colocar “Ocupação Amarildo de Souza” para se obter o seguinte: “A pesquisa não encontrou resultados”. No período da Ocupação, o grupo gaúcho RBS ainda atuava em Santa Catarina e não havia vendido suas operações para o NSC, braço de comunicação do Grupo NC (conglomerado dono do laboratório farmacêutico EMS), o que ocorreu em 2017.
Pesquisei então por “Ocupação Marielle Franco”, também tratada na tese, e retornaram apenas três resultados, todos de 2025, um deles pago pela Prefeitura de Florianópolis ao custo de R$ 2.550,00 para falar bem das ações da própria prefeitura.
No ND+, a pesquisa sobre a “Ocupação Amarildo de Souza” retornou com apenas dois resultados de 12 anos atrás e a da “Ocupação Marielle Franco” com apenas um resultado, de dois anos atrás.
Não sei como explicar isso. Será uma reestruturação de URLs após a fusão de portais regionais (DC, AN, Santa, Hora) na marca única "NSC Total" nos últimos anos? Limitação da ferramenta de busca interna dos sites? Qual o critério para “queimar” a memória noticiosa digital? Tem critério? Alguém se importa?
Fui reler um artigo da socióloga Ana Clara Torres Ribeiro intitulado “O poder (des)organizador dos meios de comunicação” e escritos do geógrafo Milton Santos para compreender como a mídia tradicional consegue “alisar” seu próprio espaço noticioso digital, assim como o capitalismo “alisa” o espaço urbano, facilitando a exploração para o lucro.
Esses portais noticiosos são hoje um território digital alisado, livre das tensões entre dominação e apropriação, onde há cada vez menos (ou inexistente) espaço para conflito de ideias, embate entre vozes. NSC e ND não convidam nem querem convidar divergências para os textos. No Grupo NSC, a segmentação de público-alvo para os interesses da construção civil, por exemplo, é um produto comercial mapeado, medido e vendido. Não cabe mostrar o que pode ameaçar os interesses do setor imobiliário no afã de vender o que for possível da “Ilha da Magia”.
Com esforço, é possível encontrar alguma “rugosidade” no infindável campo noticioso alisado desses portais. Rugosidades são assim definidas por Milton Santos:
“Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. As rugosidades se apresentam como formas isoladas ou como arranjos. É dessa forma que elas são uma parte desse espaço-fator. Ainda que sem tradução imediata, as rugosidades nos trazem os restos de divisões do trabalho já passadas (todas as escalas da divisão do trabalho), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho" (SANTOS, M., 2012, p. 140).
Quando encontro uma boa notícia ou uma boa reportagem perdida num link que se salvou do esmagamento da memória jornalística digital, vejo ali uma rugosidade, de quando havia jornalismo diário em Santa Catarina, redações com repórteres, fotógrafos, motoristas, pauteiros, editores, diagramadores, veículos da redação, entrevista coletiva – ainda existe autoridade concedendo entrevista coletiva? – concorrência, arquivo de jornais e de fotos. Restos de divisões do trabalho jornalístico já passadas.
É um assunto tão importante. Merecia mais do que essas linhas mal traçadas. Muito mais.
REFERÊNCIA
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da USP, 2012.


