sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Alisamentos noticiosos e rugosidades dos grupos de mídia de Santa Catarina



O sumiço de notícias e reportagens dos portais noticiosos da mídia tradicional de Santa Catarina não é novidade. Escrevi sobre isso em algum momento da pandemia de Covid-19. Os links quebram. Aparecem mensagens de erro. É um problema? Sim, porque temos apenas um jornal impresso de circulação diária na Grande Florianópolis, o ND+. Se os grupos de mídia não cuidam do arquivo digital, a memória do jornalismo catarinense não se entrega para o futuro. 

Para a escrita de um artigo recente sobre a verticalização em Santa Catarina, pesquisei sobre notícias a respeito da Ocupação Amarildo de Souza, entre 2013 e 2014, cuja cobertura jornalística estudei em minha tese de doutorado no Curso de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC. 

No NSC Total, basta colocar “Ocupação Amarildo de Souza” para se obter o seguinte: “A pesquisa não encontrou resultados”. No período da Ocupação, o grupo gaúcho RBS ainda atuava em Santa Catarina e não havia vendido suas operações para o NSC, braço de comunicação do Grupo NC (conglomerado dono do laboratório farmacêutico EMS), o que ocorreu em 2017. 

Pesquisei então por “Ocupação Marielle Franco”, também tratada na tese, e retornaram apenas três resultados, todos de 2025, um deles pago pela Prefeitura de Florianópolis ao custo de R$ 2.550,00 para falar bem das ações da própria prefeitura. 

No ND+, a pesquisa sobre a “Ocupação Amarildo de Souza” retornou com apenas dois resultados de 12 anos atrás e a da “Ocupação Marielle Franco” com apenas um resultado, de dois anos atrás. 

Não sei como explicar isso. Será uma reestruturação de URLs após a fusão de portais regionais (DC, AN, Santa, Hora) na marca única "NSC Total" nos últimos anos? Limitação da ferramenta de busca interna dos sites? Qual o critério para “queimar” a memória noticiosa digital? Tem critério? Alguém se importa?

Fui reler um artigo da socióloga Ana Clara Torres Ribeiro intitulado “O poder (des)organizador dos meios de comunicação” e escritos do geógrafo Milton Santos para compreender como a mídia tradicional consegue “alisar” seu próprio espaço noticioso digital, assim como o capitalismo “alisa” o espaço urbano, facilitando a exploração para o lucro.

Esses portais noticiosos são hoje um território digital alisado, livre das tensões entre dominação e apropriação, onde há cada vez menos (ou inexistente) espaço para conflito de ideias, embate entre vozes. NSC e ND não convidam nem querem convidar divergências para os textos. No Grupo NSC, a segmentação de público-alvo para os interesses da construção civil, por exemplo, é um produto comercial mapeado, medido e vendido. Não cabe mostrar o que pode ameaçar os interesses do setor imobiliário no afã de vender o que for possível da “Ilha da Magia”.

Com esforço, é possível encontrar alguma “rugosidade” no infindável campo noticioso alisado desses portais. Rugosidades são assim definidas por Milton Santos:

“Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. As rugosidades se apresentam como formas isoladas ou como arranjos. É dessa forma que elas são uma parte desse espaço-fator. Ainda que sem tradução imediata, as rugosidades nos trazem os restos de divisões do trabalho já passadas (todas as escalas da divisão do trabalho), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho" (SANTOS, M., 2012, p. 140).

Quando encontro uma boa notícia ou uma boa reportagem perdida num link que se salvou do esmagamento da memória jornalística digital, vejo ali uma rugosidade, de quando havia jornalismo diário em Santa Catarina, redações com repórteres, fotógrafos, motoristas, pauteiros, editores, diagramadores, veículos da redação, entrevista coletiva – ainda existe autoridade concedendo entrevista coletiva? – concorrência, arquivo de jornais e de fotos. Restos de divisões do trabalho jornalístico já passadas. 

É um assunto tão importante. Merecia mais do que essas linhas mal traçadas. Muito mais. 

REFERÊNCIA

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da USP, 2012. 

Clube da Reportagem

 

Tirei a semana para pensar no nosso maltratado ofício de jornalista, o violento ofício de escrever, lembrando o jornalista e escritor argentino Rodolfo Walsh. 

E pensando nele também pensei no magnífico conto “Duas palavras”, da escritora chilena Isabel Allende, publicado na coletânea “Contos de Eva Luna”. A história nos traz Belisa Crepusculário, uma mulher que ganha a vida vendendo palavras nos povoados por onde passa. A quem lhe compra o serviço, dá de presente duas palavras secretas: “Cada um recebia a sua, com a certeza de que ninguém mais a empregava para esse fim no universo inteiro e para além dele”.

É um conto que pode abrir algo como um Clube da Reportagem, assim como existe o Clube do Livro, para a gente se encontrar, ler e conversar sobre as grandes reportagens e como nelas o jornalista cavalga sobre as palavras selvagens.

Neste poder eu creio. Porque um dia ou ouvi as minhas duas palavras. E mudei a minha vida.

Imagem feita por IA

“Fruição urbana”: nova ideologia domina a lei e agora o espaço urbano de Florianópolis


No dia 15 de abril de 2019, o Floripa Sustentável, organização dos grupos dominantes da capital, apresentou um manifesto intitulado “Manifesto em favor de Florianópolis”, “(...) para levantar a discussão em torno da inclusão social como eixo de desenvolvimento da cidade” tendo como lema “Prosperidade com Inclusão Social”. O manifesto afirmava que o Movimento tinha quatro pilares: o desenvolvimento econômico, a inclusão social, a preservação ambiental e o planejamento urbano. Tudo justificativa ideológica para encobrir a venda da cidade para o mercado imobiliário. Agora, surgiu uma nova ideologia, a “fruição urbana”. Pior: a ideologia, com a articulação da gestão Topázio Neto e da maioria na Câmara de Vereadores, saltou para a lei e dela para o espaço urbano concreto de Florianópolis na forma de planejados arranha-céus que irão arruinar a paisagem tão decantada nos apelos turísticos. Um céu rasgado pela fálica breguice de construtores cuja avidez por lucro não tem mais freios.

O conceito de ideologia em Marx é inseparável das características de inverter, naturalizar, ocultar e apresentar o interesse particular como se fosse universal. Por que a “fruição pública” virou ideologia? Trata-se de um conceito que vem da arquitetura e se liga a boas práticas de projeto. A ideia é que o dono do imóvel privado "abra" o seu térreo para a cidade, criando um espaço contínuo onde qualquer pessoa teoricamente pode passar, se sentar, descansar ou transitar.

Parece bonito. Mas, no Plano Diretor de Florianópolis aprovado em 2023, ela aparece como mecanismo legal sob a seguinte lógica: se o construtor aplicar o conceito de fruição pública no projeto para supostamente melhorar a vida do pedestre, a prefeitura permitirá que ele construa mais na área restante do terreno. Ou seja, sob o manto da fruição pública, cresce assustadoramente o lucro.

A sacada aparece no Art. 295-S da Lei Complementar nº 739/2023 (Plano Diretor) e se chama de “incentivos urbanísticos”. O negócio todo, para quem não é da área, parece difícil. E é mesmo! Por isso, quando da aprovação do Plano Diretor, em 2023, havia pouca gente na frente da Câmara de Vereadores para protestar. É gente que sabia o que estava por vir. Mas agora toda a cidade sentirá no lombo as consequências da nova lei. 

Para ter incentivo de fruição pública, a área privada deve propiciar espaços de estar e convivência situados nos afastamentos/recuos do lote, passagens públicas que conectem logradouros ou áreas públicas de relevância (como orlas marítimas, lacustres, parques e bens tombados), galerias cobertas conectoras entre dois ou mais logradouros ou áreas com permeabilidade visual garantida a elementos da paisagem e do patrimônio cultural da cidade. Um decreto municipal e depois uma lei regulamentaram o instrumento. 

Foi mais uma manobra para atropelar o debate público. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) manifestou-se em uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI) defendendo a declaração de inconstitucionalidade desses dispositivos legais aprovados depois do Plano Diretor. Na prática, essas artimanhas da prefeitura, da maioria na Câmara e dos empresários da construção civil permitem o acréscimo de pavimentos em quantidade que pode chegar ao dobro do limite previsto para determinados zoneamentos da cidade, especialmente o Centro e bairros vizinhos. Estamos falando de algo como 30, 35 andares. É apartamento na faixa dos 6 milhões de reais com condomínio na faixa dos 5 mil reais. 

É importante frisar: trata-se de uma “fruição pública” instrumentalizada, em que áreas privadas ficam com "aparência" de públicas e onde as regras não são as mesmas de praças ou parques realmente públicos. É só mais um rótulo para ganhar multiplicadores de potencial construtivo e o direito de somar andares em prédios para milionários. Mas consequências como sombra e falta de ventilação sobre os prédios e casas menores em volta e mais trânsito e infraestrutura precária, por exemplo, não interessam aos construtores. E, pelo jeito, nem à prefeitura e à maioria dos vereadores. 

A cidade assim entrega ar, sol e infraestrutura pública aos construtores e em troca recebe uma passagem no térreo que beneficia majoritariamente o próprio empreendimento, que vende a “fruição pública” nos informes publicitários. Enquanto isso, as periferias do Norte, Sul e morros da Ilha continuam sem calçadas decentes, pavimentação ou boas praças públicas. 

A gestão Topázio Neto gastou dinheiro público para convencer a população de que o Plano Diretor de 2023 era algo bom. Cito apenas uma propaganda, com cara de “notícia”, publicada no Portal NSC em 20 de outubro de 2025, com o título “Plano Diretor e seus incentivos: orientando o desenvolvimento de Florianópolis no presente e para o futuro”, para o qual foram pagos ao portal R$ 2.550,00 (há vários pagamentos neste valor feitos pela prefeitura à mídia tradicional para publicar releases falando bem da gestão Topázio Neto). Um dos trechos diz o seguinte:

“A revisão recente do Plano foi estruturada sobre dez pilares que reforçam o compromisso da cidade com um modelo de urbanismo mais inclusivo e eficiente. Entre eles estão a criação de bairros completos, o fortalecimento de centralidades urbanas, a mobilidade sustentável e a valorização do espaço público. O objetivo é aproximar moradia, trabalho, lazer e serviços, reduzindo deslocamentos e impactos ambientais”.

Sério? Para quem?

Dados da Fundação João Pinheiro revelam que Santa Catarina tem 270 mil domicílios em déficit habitacional e quase 796 mil domicílios que precisam de reforma, infraestrutura ou regularização. O estado foi um dos destaques negativos na pesquisa. Dados do IBGE mostram que Florianópolis tem mais de 26 mil domicílios particulares desocupados (cerca de 12,1 mil casas e 14,8 mil apartamentos vagos). Na Grande Florianópolis, os moradores enfrentam gasto excessivo com o aluguel. Santa Catarina tem cidades com o metro quadrado para aluguel e venda entre os mais caros do país. Na busca por emprego, as famílias enfrentam o desafio de encontrar lugar para morar. As ocupações acabam sendo a alternativa diante de uma dura realidade: escolher entre morar ou comer.

Em Florianópolis, onde prefeitura e empresários são parceiros – parceria que inclui até a plataforma gigante de hospedagem AirBnb para cessão de dados de turismo – tem muita gente achando linda essa história de “fruição pública”. E agora a ideologia se enriquece com a tal “dinamarquização” de Florianópolis, por causa da contratação, pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e a Associação Empresarial de Florianópolis (ACIF), do escritório dinamarquês Gehl Architects, para “revitalizar e dinamizar a região central” da capital. 

E para quem acha que não tem nada a ver com isso, espere até ver as consequências para a cidade. 


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Caderno de Trabalho "(Re)existências criativas a partir da comunicação e da cidade"


O segundo Caderno de Trabalho do GT15 – Comunicação e Cidade, intitulado "(Re)existências criativas a partir da comunicação e da cidade", será lançado durante o Congresso da ALAIC, no México, no âmbito das atividades do GT15, do qual faço parte.

A publicação reúne 14 artigos que abordam as tensões que definem a contemporaneidade, com especial atenção à dialética entre a cidade e a ruralidade, atravessada pela onipresença da comunicação como eixo estruturante da experiência social. O volume oferece um panorama de pesquisas que abordam as múltiplas formas de (re)existência criativa nos territórios latino-americanos, a partir da perspectiva da comunicação e da cidade.

Meu ensaio trata sobre conflitos entre apropriação e dominação em Florianópolis com foco na luta pela Ponta do Coral 100% Pública.

Segundo Caderno de Trabalho: https://heyzine.com/flip-book/5ff9327926.html

terça-feira, 14 de julho de 2026

O papel da mídia hegemônica no processo de verticalização em Santa Catarina

 


Uma boa pesquisa sobre o dito jornalismo praticado hoje pela mídia hegemônica de Santa Catarina, com análise de notícias, reportagens (onde?), colunas, é difícil de localizar. Análise quantitativa e qualitativa. Rotina de trabalho nas redações. Saúde física e mental de jornalistas. As pesquisas são raras. Os conceitos e autores da moda pululam nos artigos científicos, mas não adianta procurar meia dúzia de relatos sobre o cotidiano das redações no estado. De todo o modo, há um antes e um depois no que se refere às plataformas digitais, à Inteligência Artificial (IA) e o uso que dela fazem os grupos de comunicação catarinenses.

Minha tese de doutorado em jornalismo é de 2019, antes da disseminação comercial dos sistemas de IA. Ela aborda o espaço no jornalismo pelo estudo de ocupações urbanas para moradia e lazer e a análise se deu sobre notícias e reportagens impressas entre 2013 e 2019. Refleti sobre o tema a partir da teoria marxista do jornalismo de Adelmo Genro Filho e a teoria da produção do espaço de Henri Lefebvre, uma tríade de três momentos: o espaço percebido, o concebido e o vivido.

Uma de minhas críticas foi que a cobertura jornalística sobre o tema da pesquisa priorizava o espaço concebido, que é o espaço dos cientistas, planificadores, urbanistas, tecnocratas, engenheiros sociais, todos eles produzindo discursos sobre a cidade na lógica da gestão pública ultraliberal que domina Florianópolis, onde concentrei meu estudo.

Mas pensar o espaço concebido hoje, no mundo das plataformas e IAs, leva a refletir sobre outra dimensão do espaço concebido: o digital. Aquele criado pelos grupos de mídia, completamente reféns do Vale do Silício, para alavancar o que dá mais lucro. Um espaço programado por indexação predatória, algoritmos de geolocalização e filtros comerciais a serviços dos grupos dominantes ávidos por abocanhar o espaço concreto, a terra, a paisagem, as melhores localizações.

Ele tem dado indícios em minhas pesquisas recentes sobre a cobertura jornalística acerca do processo de verticalização em Santa Catarina. Nos grupos NSC e ND, a segmentação de público-alvo para os interesses da construção civil é um produto comercial mapeado, medido e vendido com afinco, e são vários os caminhos para comprovar isso.

No caso do NSC, um bom resumo aparece em um dos e-books oferecido pela unidade “Negócios SC”, o “Estudo do Mercado Imobiliário – 2025”, com o comportamento do segmento. O estudo mostra o tamanho deste mercado, com a valorização crescente de imóveis no litoral do estado, o perfil do público (compradores para moradia e investimento e proprietários de imóveis para aluguel) e as estratégias de comunicação para alcançar os interessados em cada segmento.

Para baixar o caderno, é necessário informar e-mail e aceitar a “Política de Privacidade e Termo de Consentimento para Tratamento de Dados Pessoais Grupo NC”. São seis páginas e vale ressaltar, entre as 10 finalidades do tratamento de dados, a de “Geração de estatísticas, estudos, pesquisas e levantamentos relacionados às atividades e comportamentos no uso do Site”. Concordar com a política do grupo também implica aceitar que os dados sejam compartilhados com prestadores de serviço, parceiros e fornecedores no Brasil e no exterior, tudo controlado pelo Google Analytics. É uma cuidadosa extração de valor de troca de dados comportamentais.

No caso dos cookies, por meio das informações salvas e devolvidas, o site do grupo reconhece que o usuário já o acessou em algum momento, o que possibilita exibir o site de acordo com as preferências do usuário. Só isso pode gerar uma boa análise, por exemplo, sobre a grande visibilidade de notícias sobre o sucesso da construção civil e a baixa visibilidade daquelas sobre ocupações urbanas e lutas por moradia.

Há diversas possibilidades de parcerias do grupo com os anunciantes. Um deles é o Branded Content, em português Conteúdo de Marca, uma estratégia de marketing que une os valores de uma empresa à produção de conteúdo relevante com cara de notícia. Parece notícia. Mas não é. A divulgação do material sobre o Branded Content é esta: “Um time de jornalistas que cria conteúdo estratégico para engajar a audiência do maior ecossistema de comunicação de Santa Catarina e alavancar o reconhecimento das pequenas, médias e grandes marcas”. Esses conteúdos buscam construir relevância através de SEO (Search Engine Optimization), um conjunto de estratégias para melhorar o posicionamento de um site nos motores de busca. O grupo também promete “Brand Safety” (Segurança de Marca), para um “ambiente digital seguro e livre de fake news”, instrumento que impede anúncios de aparecerem ao lado de conteúdos considerados inseguros ou com conotação negativa para a empresa ou marca.

Mas fica a pergunta: repórteres que não são do NSC Estúdio, setor responsável pelo Branded Content, também são pressionados a produzir esse tipo de conteúdo publicitário como se notícia fosse para gerar visibilidade positiva para o setor da construção civil? Essas matérias caracterizam-se por galerias com várias imagens geradoras de mais cliques e, consequentemente, melhores métricas. Aí é vender gato por lebre, conteúdo comercial por notícia. São "notícias" que geralmente apresentam uma fonte, a indicada pela empresa. 

Entre os “cases de sucesso” divulgados pelo grupo no mencionado caderno está o de uma rede de hotéis e eventos no Norte da Ilha de Santa Catarina, tratado em uma “matéria publicitária” sobre os motivos que levaram a Praia de Canasvieiras a ser uma das mais procuradas em Florianópolis. Depois de abordar os pontos positivos da praia, a publicidade cita como hospedagem ideal a rede de hotéis, com fotos e detalhes do empreendimento. Este tipo de texto aparece com o selo “Estúdio NSC” e “Branded Content”. Mas tais selos não deixam evidente que não se trata de uma notícia! No tempo do jornal impresso, isso se vendia pelo que era, Informe Publicitário. Os tempos (e as expressões em inglês para confundir os desavisados) são outros.

Mais um investimento do “ecossistema” do grupo é o Nexpon, lançado em 2022, que investe em empresas com alto potencial de crescimento, combinando duas modalidades, conforme se anuncia: “Media for Equity (M4E), um modelo em que aportamos mídia como capital, e investimento financeiro direto. Mais do que capital, oferecemos o alcance e a credibilidade de um dos maiores grupos de mídia do Sul do Brasil como plataforma para um crescimento sustentado”. No portfólio de investimentos está uma “rede colaborativa de anfitriões profissionais que ajudam proprietários a maximizar seus rendimentos em plataformas como Airbnb e Booking”. Os modelos de investimento trazem expressões como “Media for Equity (M4E)”, “Venture Building” e “Parcerias e Joint Ventures”.

Esse tipo de parceria mereceria estudo mais amplo, principalmente porque o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, em 2025 firmou parceria com a plataforma Airbnb para “aprimorar políticas públicas de turismo e fortalecer o desenvolvimento econômico da capital catarinense”. A iniciativa prevê “compartilhamento de inteligência mercadológica e apoio em ações de promoção turística para impulsionar o turismo na região”. Em um ano (2024), o Airbnb movimentou R$ 4,7 bilhões em Florianópolis. Há aí raízes que também explicam o abusivo mercado de compra, venda e locação de imóveis na capital catarinense.

Dá para perceber que o grupo NSC não apenas apresenta vestígios do espaço concebido (o espaço projetado antes de ser vivido) em suas notícias e reportagens: ele participa da própria produção dele, permitindo ao setor imobiliário moldar a narrativa de valorização de bairros e regiões específicas. Colhendo dados de acesso, o grupo mede e revende ao mercado imobiliário (entre outros) o comportamento do público catarinense como matéria-prima de segmentação publicitária, produzindo um espaço urbano digital por meio de algoritmos de geolocalização e segmentação de público. Nesta distribuição perversa de informação, a luta por moradia, tema que pesquiso, ou é invisibilizada ou criminalizada. O SEO visibiliza bairros nobres e balneários chiques e relega aos subterrâneos do site termos relacionados à "ocupação urbana", "sem-teto" ou "periferia". A invisibilidade geográfica tornou-se uma invisibilidade algorítmica.

Há quem jure que ainda há alguma separação entre jornalismo e publicidade na mídia hegemônica catarinense. Certamente no colunismo tal suposta separação é bem tênue ou inexistente. Os colunistas refestelam-se para falar sobre os grandes e novos empreendimentos e os números exibidos pelo mercado imobiliário e são os primeiros a criminalizar com virulência as ocupações urbanas por moradia. Na seara do colunismo, do jornalismo opinativo, não vale a pena perder o tempo com pesquisa. Mas no jornalismo informativo sim.

Semanas atrás, escrevi um artigo abordando a quase inexistência de entrevistas face a face no jornalismo catarinense. Desgraçadamente, nos faltam boas pesquisas empíricas. Mas uma leitura rápida de notícias no site do grupo NSC oferece indícios de uma produção diária gerada principalmente por releases e apuração mínima, propícios para alimentar rapidamente os sistemas de gerenciamento de conteúdo. Falam ali as vozes do poder privado e público, o mesmo que repassa recursos vultosos para os grupos de mídia catarinense, contribuindo também assim para apagar as contradições sociais.

O que aparece de entrevista é provavelmente alimentada por perguntas e respostas via WhatsApp ou e-mail. Uma entrevista face a face deixa vestígios e há poucos no NSC. Os jornalistas chegam a produzir sete e até mais notícias diariamente e devem se passar semanas sem que um profissional possa ter a oportunidade de conversar com pessoas face a face para ampliar notícias e (raras) reportagens.

O círculo vicioso dos assuntos banais é alimentado pelo caça-cliques, monitoramento constante das métricas de painéis em tempo real e mais assuntos banais. A redação exibe publicamente o ranking dos repórteres com mais cliques e os assuntos mais rentáveis, forçando uma competição massacrante entre os profissionais por resultados que pouco têm a ver, como já foi exposto, com conteúdo jornalístico relevante. Escreve-se hoje para algoritmos, não para pessoas.

Em minha tese, também concluí que o jornalismo catarinense silencia sobre o espaço vivido, o espaço do cotidiano, que a imaginação deseja modificar e tomar. Mas hoje diria mais: o jornalista das redações de Santa Catarina igualmente tem liquidado o seu espaço vivido. É um ser dos escritórios. Sabe pouco da cidade e da vida cotidiana, porque dela pouco usufrui. Como jornalista porque quase não sai da redação; como pessoa, porque ganha mal. E geralmente, deslumbrado e iludido pelo status de trabalhar na filiada à Rede Globo, aliena-se em relação às coações e coerções dos patrões e à superexploração do seu trabalho

Neste cenário, a pressão não vem mais da chamada de atenção do repórter pelo editor no “aquário” da redação ou do bilhete do dono do jornal. Ela vem de um sistema digital gigantesco que se visibiliza no painel do Google Analytics piscando na redação, a lembrar o dia todo que há metas de “pageview” a serem batidas ao final do mês.

No fim das contas, vira tudo uma gigantesca extração de dados (valores de troca neste “ecossistema”) sugados pelas grandes plataformas e regurgitados num volume estrondoso de informação vendida como jornalismo, azeitada por muito dinheiro público (como já escrevi várias vezes) e que pouco diz da realidade cotidiana de Santa Catarina e de sua população.

No grupo ND não deve ser muito diferente.

Faço essas reflexões e me pergunto: a quem isto incomoda?

Fontes:

Em um ano, Airbnb movimenta R$ 4,7 bilhões em Florianópolis, aponta FGV. https://news.airbnb.com/br/em-um-ano-airbnb-movimenta-r-47-bilhoes-em-florianopolis-aponta-fgv/

Prefeitura de Florianópolis e Airbnb firmam parceria para impulsionar turismo: https://news.airbnb.com/br/prefeitura-de-florianopolis-e-airbnb-firmam-parceria-para-impulsionar-turismo/

Outras reflexões sobre o tema:

Sobre jornalismo, entrevista e fontes

https://jornalismoambientalsc.blogspot.com/2026/04/sobre-jornalismo-entrevista-e-fontes.html

Florianópolis, capital de jornalismo desterrado

https://jornalismoecidade.blogspot.com/2025/04/florianopolis-capital-de-jornalismo.html

Morre o jornalismo, nasce uma coisa – Parte 1



terça-feira, 19 de maio de 2026

Orelhões, me desculpem, não cheguei a tempo


Hoje, cavoucando em antigas edições do jornal O Estado, encontrei uma notícia de 1972 que anunciava a instalação dos primeiros orelhões em Florianópolis. 

Na hora me lembrei de matéria do jornalista Billy Culleton no portal Floripa Centro com o título 'Relíquias – Salvem os últimos dois ´orelhões´ da região central de Florianópolis".

No caminho para o trabalho, tentei localizar o túmulo do orelhão arrancado do canteiro central da Hercílio Luz uns dois anos atrás. 

Digo túmulo porque, depois que arranca, fica um hexágono com um triângulo no meio. O túmulo havia sumido.

Corri para a Rua Padre Miguelinho porque ali, ao lado do muro da Catedral, pouco mais de dois meses atrás, havia um espécime um tanto arruinado, mas de pé. Também desapareceu. Sobrou o túmulo. Não salvei uma única foto sequer daquele sobrevivente.

Às vezes me sinto como Jerry Fletcher, o personagem de Mel Gibson no filme “Teoria da Conspiração”. Ele vê coisas aparecendo e desaparecendo na cidade e parece que mais ninguém percebe. 

Um orelhão a menos, um prédio de 16 andares a mais, um naco de manguezal aterrado. 

Como diz a música do The Housemartins, it's build.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O tombo do jornalismo catarinense

 


Concluí um artigo que recorre à entrevista e pesquisa em jornal impresso para relatar a ocupação ocorrida em setembro de 1984 na então Praça da Bandeira, hoje Tancredo Neves, em frente ao então Palácio do Governo, no Centro de Florianópolis, por famílias auto-denominadas “Sofredores da Rua”.

A ocupação ocorreu seis anos antes da bem-documentada Ocupação Novo Horizonte, em julho de 1990, considerada a primeira ocupação organizada de terras na capital catarinense, em um terreno público às margens da Via Expressa e onde hoje está o bairro Monte Cristo.

Aquela, ao contrário desta, pressionava por um conjunto específico de reivindicações – um pedaço de terra, um pouco de madeira e vagas para trabalhar – e ocupava provisoriamente uma praça, e não um terreno com o objetivo especifico de constituição de moradia, caso da Ocupação Novo Horizonte.

Fato marcante na pesquisa: a mudança drástica da cobertura jornalística sobre o tema.

A análise do jornal O Estado sobre aquele fato apresenta aspectos reveladores em relação às coberturas posteriores, como a da Ocupação Amarildo de Souza, em 2013/14, pelos jornais Diário Catarinense e Notícias do Dia, quando as notícias e reportagens, ao se referir à ação das populações empobrecidas sobre a terra, já não falam em ocupação, e sim em invasão.

Também é notável, na cobertura de O Estado, a referência ao conjunto de circunstâncias que levaram as famílias em situação de rua a ocupar a praça, como a expulsão do campo e as enchentes ocorridas no estado.

No caso da Ocupação Amarildo de Souza, a cobertura dos dois jornais mencionados moveu-se pela afirmação da vocação turística da Ilha, afetada pela presença daquelas famílias empobrecidas em uma área reservada para os interesses dos grupos dominantes, e pelo imperativo da propriedade privada, tratado como superior a qualquer outro direito, inclusive o direito à moradia.

Um exemplo na imagem: é uma belíssima reportagem de O Estado em 1989 de página inteira com uma notícia principal e três retrancas sobre migração e moradia.

Quando isso nos veículos de Santa Catarina na atualidade?

Que tombo, que tombo. Que silêncio.

Alisamentos noticiosos e rugosidades dos grupos de mídia de Santa Catarina

O sumiço de notícias e reportagens dos portais noticiosos da mídia tradicional de Santa Catarina não é novidade. Escrevi sobre isso em algum...