terça-feira, 14 de julho de 2026

O papel da mídia hegemônica no processo de verticalização em Santa Catarina

 


Uma boa pesquisa sobre o dito jornalismo praticado hoje pela mídia hegemônica de Santa Catarina, com análise de notícias, reportagens (onde?), colunas, é difícil de localizar. Análise quantitativa e qualitativa. Rotina de trabalho nas redações. Saúde física e mental de jornalistas. As pesquisas são raras. Os conceitos e autores da moda pululam nos artigos científicos, mas não adianta procurar meia dúzia de relatos sobre o cotidiano das redações no estado. De todo o modo, há um antes e um depois no que se refere às plataformas digitais, à Inteligência Artificial (IA) e o uso que dela fazem os grupos de comunicação catarinenses.

Minha tese de doutorado em jornalismo é de 2019, antes da disseminação comercial dos sistemas de IA. Ela aborda o espaço no jornalismo pelo estudo de ocupações urbanas para moradia e lazer e a análise se deu sobre notícias e reportagens impressas entre 2013 e 2019. Refleti sobre o tema a partir da teoria marxista do jornalismo de Adelmo Genro Filho e a teoria da produção do espaço de Henri Lefebvre, uma tríade de três momentos: o espaço percebido, o concebido e o vivido.

Uma de minhas críticas foi que a cobertura jornalística sobre o tema da pesquisa priorizava o espaço concebido, que é o espaço dos cientistas, planificadores, urbanistas, tecnocratas, engenheiros sociais, todos eles produzindo discursos sobre a cidade na lógica da gestão pública ultraliberal que domina Florianópolis, onde concentrei meu estudo.

Mas pensar o espaço concebido hoje, no mundo das plataformas e IAs, leva a refletir sobre outra dimensão do espaço concebido: o digital. Aquele criado pelos grupos de mídia, completamente reféns do Vale do Silício, para alavancar o que dá mais lucro. Um espaço programado por indexação predatória, algoritmos de geolocalização e filtros comerciais a serviços dos grupos dominantes ávidos por abocanhar o espaço concreto, a terra, a paisagem, as melhores localizações.

Ele tem dado indícios em minhas pesquisas recentes sobre a cobertura jornalística acerca do processo de verticalização em Santa Catarina. Nos grupos NSC e ND, a segmentação de público-alvo para os interesses da construção civil é um produto comercial mapeado, medido e vendido com afinco, e são vários os caminhos para comprovar isso.

No caso do NSC, um bom resumo aparece em um dos e-books oferecido pela unidade “Negócios SC”, o “Estudo do Mercado Imobiliário – 2025”, com o comportamento do segmento. O estudo mostra o tamanho deste mercado, com a valorização crescente de imóveis no litoral do estado, o perfil do público (compradores para moradia e investimento e proprietários de imóveis para aluguel) e as estratégias de comunicação para alcançar os interessados em cada segmento.

Para baixar o caderno, é necessário informar e-mail e aceitar a “Política de Privacidade e Termo de Consentimento para Tratamento de Dados Pessoais Grupo NC”. São seis páginas e vale ressaltar, entre as 10 finalidades do tratamento de dados, a de “Geração de estatísticas, estudos, pesquisas e levantamentos relacionados às atividades e comportamentos no uso do Site”. Concordar com a política do grupo também implica aceitar que os dados sejam compartilhados com prestadores de serviço, parceiros e fornecedores no Brasil e no exterior, tudo controlado pelo Google Analytics. É uma cuidadosa extração de valor de troca de dados comportamentais.

No caso dos cookies, por meio das informações salvas e devolvidas, o site do grupo reconhece que o usuário já o acessou em algum momento, o que possibilita exibir o site de acordo com as preferências do usuário. Só isso pode gerar uma boa análise, por exemplo, sobre a grande visibilidade de notícias sobre o sucesso da construção civil e a baixa visibilidade daquelas sobre ocupações urbanas e lutas por moradia.

Há diversas possibilidades de parcerias do grupo com os anunciantes. Um deles é o Branded Content, em português Conteúdo de Marca, uma estratégia de marketing que une os valores de uma empresa à produção de conteúdo relevante com cara de notícia. Parece notícia. Mas não é. A divulgação do material sobre o Branded Content é esta: “Um time de jornalistas que cria conteúdo estratégico para engajar a audiência do maior ecossistema de comunicação de Santa Catarina e alavancar o reconhecimento das pequenas, médias e grandes marcas”. Esses conteúdos buscam construir relevância através de SEO (Search Engine Optimization), um conjunto de estratégias para melhorar o posicionamento de um site nos motores de busca. O grupo também promete “Brand Safety” (Segurança de Marca), para um “ambiente digital seguro e livre de fake news”, instrumento que impede anúncios de aparecerem ao lado de conteúdos considerados inseguros ou com conotação negativa para a empresa ou marca.

Mas fica a pergunta: repórteres que não são do NSC Estúdio, setor responsável pelo Branded Content, também são pressionados a produzir esse tipo de conteúdo publicitário como se notícia fosse para gerar visibilidade positiva para o setor da construção civil? Essas matérias caracterizam-se por galerias com várias imagens geradoras de mais cliques e, consequentemente, melhores métricas. Aí é vender gato por lebre, conteúdo comercial por notícia. São "notícias" que geralmente apresentam uma fonte, a indicada pela empresa. 

Entre os “cases de sucesso” divulgados pelo grupo no mencionado caderno está o de uma rede de hotéis e eventos no Norte da Ilha de Santa Catarina, tratado em uma “matéria publicitária” sobre os motivos que levaram a Praia de Canasvieiras a ser uma das mais procuradas em Florianópolis. Depois de abordar os pontos positivos da praia, a publicidade cita como hospedagem ideal a rede de hotéis, com fotos e detalhes do empreendimento. Este tipo de texto aparece com o selo “Estúdio NSC” e “Branded Content”. Mas tais selos não deixam evidente que não se trata de uma notícia! No tempo do jornal impresso, isso se vendia pelo que era, Informe Publicitário. Os tempos (e as expressões em inglês para confundir os desavisados) são outros.

Mais um investimento do “ecossistema” do grupo é o Nexpon, lançado em 2022, que investe em empresas com alto potencial de crescimento, combinando duas modalidades, conforme se anuncia: “Media for Equity (M4E), um modelo em que aportamos mídia como capital, e investimento financeiro direto. Mais do que capital, oferecemos o alcance e a credibilidade de um dos maiores grupos de mídia do Sul do Brasil como plataforma para um crescimento sustentado”. No portfólio de investimentos está uma “rede colaborativa de anfitriões profissionais que ajudam proprietários a maximizar seus rendimentos em plataformas como Airbnb e Booking”. Os modelos de investimento trazem expressões como “Media for Equity (M4E)”, “Venture Building” e “Parcerias e Joint Ventures”.

Esse tipo de parceria mereceria estudo mais amplo, principalmente porque o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, em 2025 firmou parceria com a plataforma Airbnb para “aprimorar políticas públicas de turismo e fortalecer o desenvolvimento econômico da capital catarinense”. A iniciativa prevê “compartilhamento de inteligência mercadológica e apoio em ações de promoção turística para impulsionar o turismo na região”. Em um ano (2024), o Airbnb movimentou R$ 4,7 bilhões em Florianópolis. Há aí raízes que também explicam o abusivo mercado de compra, venda e locação de imóveis na capital catarinense.

Dá para perceber que o grupo NSC não apenas apresenta vestígios do espaço concebido (o espaço projetado antes de ser vivido) em suas notícias e reportagens: ele participa da própria produção dele, permitindo ao setor imobiliário moldar a narrativa de valorização de bairros e regiões específicas. Colhendo dados de acesso, o grupo mede e revende ao mercado imobiliário (entre outros) o comportamento do público catarinense como matéria-prima de segmentação publicitária, produzindo um espaço urbano digital por meio de algoritmos de geolocalização e segmentação de público. Nesta distribuição perversa de informação, a luta por moradia, tema que pesquiso, ou é invisibilizada ou criminalizada. O SEO visibiliza bairros nobres e balneários chiques e relega aos subterrâneos do site termos relacionados à "ocupação urbana", "sem-teto" ou "periferia". A invisibilidade geográfica tornou-se uma invisibilidade algorítmica.

Há quem jure que ainda há alguma separação entre jornalismo e publicidade na mídia hegemônica catarinense. Certamente no colunismo tal suposta separação é bem tênue ou inexistente. Os colunistas refestelam-se para falar sobre os grandes e novos empreendimentos e os números exibidos pelo mercado imobiliário e são os primeiros a criminalizar com virulência as ocupações urbanas por moradia. Na seara do colunismo, do jornalismo opinativo, não vale a pena perder o tempo com pesquisa. Mas no jornalismo informativo sim.

Semanas atrás, escrevi um artigo abordando a quase inexistência de entrevistas face a face no jornalismo catarinense. Desgraçadamente, nos faltam boas pesquisas empíricas. Mas uma leitura rápida de notícias no site do grupo NSC oferece indícios de uma produção diária gerada principalmente por releases e apuração mínima, propícios para alimentar rapidamente os sistemas de gerenciamento de conteúdo. Falam ali as vozes do poder privado e público, o mesmo que repassa recursos vultosos para os grupos de mídia catarinense, contribuindo também assim para apagar as contradições sociais.

O que aparece de entrevista é provavelmente alimentada por perguntas e respostas via WhatsApp ou e-mail. Uma entrevista face a face deixa vestígios e há poucos no NSC. Os jornalistas chegam a produzir sete e até mais notícias diariamente e devem se passar semanas sem que um profissional possa ter a oportunidade de conversar com pessoas face a face para ampliar notícias e (raras) reportagens.

O círculo vicioso dos assuntos banais é alimentado pelo caça-cliques, monitoramento constante das métricas de painéis em tempo real e mais assuntos banais. A redação exibe publicamente o ranking dos repórteres com mais cliques e os assuntos mais rentáveis, forçando uma competição massacrante entre os profissionais por resultados que pouco têm a ver, como já foi exposto, com conteúdo jornalístico relevante. Escreve-se hoje para algoritmos, não para pessoas.

Em minha tese, também concluí que o jornalismo catarinense silencia sobre o espaço vivido, o espaço do cotidiano, que a imaginação deseja modificar e tomar. Mas hoje diria mais: o jornalista das redações de Santa Catarina igualmente tem liquidado o seu espaço vivido. É um ser dos escritórios. Sabe pouco da cidade e da vida cotidiana, porque dela pouco usufrui. Como jornalista porque quase não sai da redação; como pessoa, porque ganha mal. E geralmente, deslumbrado e iludido pelo status de trabalhar na filiada à Rede Globo, aliena-se em relação às coações e coerções dos patrões e à superexploração do seu trabalho

Neste cenário, a pressão não vem mais da chamada de atenção do repórter pelo editor no “aquário” da redação ou do bilhete do dono do jornal. Ela vem de um sistema digital gigantesco que se visibiliza no painel do Google Analytics piscando na redação, a lembrar o dia todo que há metas de “pageview” a serem batidas ao final do mês.

No fim das contas, vira tudo uma gigantesca extração de dados (valores de troca neste “ecossistema”) sugados pelas grandes plataformas e regurgitados num volume estrondoso de informação vendida como jornalismo, azeitada por muito dinheiro público (como já escrevi várias vezes) e que pouco diz da realidade cotidiana de Santa Catarina e de sua população.

No grupo ND não deve ser muito diferente.

Faço essas reflexões e me pergunto: a quem isto incomoda?

Fontes:

Em um ano, Airbnb movimenta R$ 4,7 bilhões em Florianópolis, aponta FGV. https://news.airbnb.com/br/em-um-ano-airbnb-movimenta-r-47-bilhoes-em-florianopolis-aponta-fgv/

Prefeitura de Florianópolis e Airbnb firmam parceria para impulsionar turismo: https://news.airbnb.com/br/prefeitura-de-florianopolis-e-airbnb-firmam-parceria-para-impulsionar-turismo/

Outras reflexões sobre o tema:

Sobre jornalismo, entrevista e fontes

https://jornalismoambientalsc.blogspot.com/2026/04/sobre-jornalismo-entrevista-e-fontes.html

Florianópolis, capital de jornalismo desterrado

https://jornalismoecidade.blogspot.com/2025/04/florianopolis-capital-de-jornalismo.html

Morre o jornalismo, nasce uma coisa – Parte 1



terça-feira, 19 de maio de 2026

Orelhões, me desculpem, não cheguei a tempo


Hoje, cavoucando em antigas edições do jornal O Estado, encontrei uma notícia de 1972 que anunciava a instalação dos primeiros orelhões em Florianópolis. 

Na hora me lembrei de matéria do jornalista Billy Culleton no portal Floripa Centro com o título 'Relíquias – Salvem os últimos dois ´orelhões´ da região central de Florianópolis".

No caminho para o trabalho, tentei localizar o túmulo do orelhão arrancado do canteiro central da Hercílio Luz uns dois anos atrás. 

Digo túmulo porque, depois que arranca, fica um hexágono com um triângulo no meio. O túmulo havia sumido.

Corri para a Rua Padre Miguelinho porque ali, ao lado do muro da Catedral, pouco mais de dois meses atrás, havia um espécime um tanto arruinado, mas de pé. Também desapareceu. Sobrou o túmulo. Não salvei uma única foto sequer daquele sobrevivente.

Às vezes me sinto como Jerry Fletcher, o personagem de Mel Gibson no filme “Teoria da Conspiração”. Ele vê coisas aparecendo e desaparecendo na cidade e parece que mais ninguém percebe. 

Um orelhão a menos, um prédio de 16 andares a mais, um naco de manguezal aterrado. 

Como diz a música do The Housemartins, it's build.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O tombo do jornalismo catarinense

 


Concluí um artigo que recorre à entrevista e pesquisa em jornal impresso para relatar a ocupação ocorrida em setembro de 1984 na então Praça da Bandeira, hoje Tancredo Neves, em frente ao então Palácio do Governo, no Centro de Florianópolis, por famílias auto-denominadas “Sofredores da Rua”.

A ocupação ocorreu seis anos antes da bem-documentada Ocupação Novo Horizonte, em julho de 1990, considerada a primeira ocupação organizada de terras na capital catarinense, em um terreno público às margens da Via Expressa e onde hoje está o bairro Monte Cristo.

Aquela, ao contrário desta, pressionava por um conjunto específico de reivindicações – um pedaço de terra, um pouco de madeira e vagas para trabalhar – e ocupava provisoriamente uma praça, e não um terreno com o objetivo especifico de constituição de moradia, caso da Ocupação Novo Horizonte.

Fato marcante na pesquisa: a mudança drástica da cobertura jornalística sobre o tema.

A análise do jornal O Estado sobre aquele fato apresenta aspectos reveladores em relação às coberturas posteriores, como a da Ocupação Amarildo de Souza, em 2013/14, pelos jornais Diário Catarinense e Notícias do Dia, quando as notícias e reportagens, ao se referir à ação das populações empobrecidas sobre a terra, já não falam em ocupação, e sim em invasão.

Também é notável, na cobertura de O Estado, a referência ao conjunto de circunstâncias que levaram as famílias em situação de rua a ocupar a praça, como a expulsão do campo e as enchentes ocorridas no estado.

No caso da Ocupação Amarildo de Souza, a cobertura dos dois jornais mencionados moveu-se pela afirmação da vocação turística da Ilha, afetada pela presença daquelas famílias empobrecidas em uma área reservada para os interesses dos grupos dominantes, e pelo imperativo da propriedade privada, tratado como superior a qualquer outro direito, inclusive o direito à moradia.

Um exemplo na imagem: é uma belíssima reportagem de O Estado em 1989 de página inteira com uma notícia principal e três retrancas sobre migração e moradia.

Quando isso nos veículos de Santa Catarina na atualidade?

Que tombo, que tombo. Que silêncio.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

El Niño à vista e 70% dos municípios catarinenses flexibilizaram leis de proteção da natureza

Catarina, 2004

No final de semana, a mídia local repercutiu alertas de meteorologistas para o fato de que o El Niño 2026 pode aumentar chuvas, granizo e tempestades em Santa Catarina. Tivessem as redações um editor do porte de um Carlos Fehlberg, jornalista e falecido diretor de redação do jornal Diário Catarinense (marcou época!), já estariam em produção reportagens de como o estado e os municípios estão se preparando e cobrando medidas do poder público. Mas não. O que vi foram alusões vagas sobre a Defesa Civil estar preparada. É?

E o que faz a maioria dos prefeitos? Flexibiliza a proteção da natureza.

Um levantamento do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CME) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) revelou que mais de 200 dos 295 municípios do estado já editaram normas próprias reduzindo e redefinindo áreas de preservação permanente (APPs) ao longo de rios, córregos e lagos em áreas urbanas consolidadas.  

Ações diretas de inconstitucionalidade já foram ajuizadas contra leis aprovadas por cinco municípios (Joinville, Gaspar, Bom Jardim da Serra, Massaranduba e Schroeder), e Promotorias de Justiça de todo estado instauraram, somente até novembro de 2025, 97 procedimentos para apurar a legalidade e buscar soluções judicial ou extrajudicialmente.

Que sabe a população dos municípios catarinenses sobre a destruição da natureza patrocinada por prefeitos e vereadores na maior parte dos municípios do estado? E os impactos com as mudanças climáticas?

Cabe o acompanhamento crítico de todas as ações do estado e dos municípios, listando obras com data de início e término, valores investidos, localização, empresas envolvidas. Quem fará? Seria também o papel de um jornalismo efetivamente comprometido com a população, mas, em Santa Catarina, o que existe é um sistema de propaganda irrigado com dinheiro público e a serviço dos interesses do governador Jorginho Mello.

Reproduzo a seguir as respostas (por e-mail a pedido) da Promotora de Justiça Stephani Gaeta Sanches, coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CME) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), a uma série de perguntas que fiz sobre o assunto:


- Quais foram os resultados do levantamento sobre a legislação dos municípios catarinenses em relação à preservação da natureza? 

212 municípios catarinenses já aprovaram leis locais que reduzem ou delimitam faixas de Áreas de Preservação Permanente (APPs) em áreas urbanas consolidadas.

295 municípios compõem o Estado de Santa Catarina, o que evidencia a ampla disseminação desse fenômeno legislativo.

Mais de 70% dos municípios já se valeram da autorização legal para promover a redução das faixas de APP em zonas urbanas.

O levantamento demonstra que a flexibilização das APPs urbanas deixou de ser pontual e passou a ter caráter estrutural e generalizado no Estado.

Trata-se de um movimento legislativo amplo, rápido e com impactos diretos sobre a segurança ambiental e urbana.


- O que motivou o levantamento? 

A principal motivação foi a velocidade e a capilaridade com que os municípios catarinenses passaram a aprovar leis sobre o tema, muitas vezes sem respaldo técnico adequado.

Em diversos casos analisados por este Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (destaca-se que a análise foi realizada por amostragem), constatou-se a ausência ou insuficiência de estudos técnicos socioambientais, o que gera riscos concretos à população, especialmente em áreas sujeitas a inundações, deslizamentos e outros eventos extremos, além de danos irreversíveis ao meio ambiente.

O levantamento atende à missão institucional do Ministério Público de defesa do meio ambiente e da ordem urbanística.


- Quando ele iniciou e quanto tempo durou? 

O acompanhamento teve início em 2024, quando o tema foi eleito como uma das prioridades institucionais na área ambiental no Plano Geral de Atuação (PGA) 2024/2025.

No ano passado, o assunto também foi definido como prioridade pelos Promotores de Justiça da Região de Joinville no âmbito do Projeto Prioriza, para o período 2026/2027.

O levantamento não tem prazo de encerramento, tratando-se de um monitoramento permanente e contínuo.

A continuidade do acompanhamento reflete a relevância e a complexidade do tema.


- Quem fez o levantamento? 

O levantamento é conduzido pelo Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CME), responsável pela pesquisa legislativa e sistematização das informações.

O trabalho conta também com a colaboração direta das Promotorias de Justiça, que encaminham dados sobre as legislações locais, bem como sobre medidas extrajudiciais e judiciais adotadas em cada caso.


- Qual foi o procedimento (metodologia) utilizado para o levantamento? 

Pesquisa legislativa: levantamento amplo de leis municipais por meio da rede mundial de computadores, com consulta a sites oficiais dos municípios e câmaras municipais.

Análise jurídica e técnica: realizada pelo CME, mediante solicitação de apoio requerida pelas Promotorias de Justiça, considerando os parâmetros da Lei Federal n. 12.651/2012 (Código Florestal) e da Lei Federal n. 14.285/2021.

A metodologia utilizada combina pesquisa documental e análise técnico-jurídica especializada.


- Qual foi (foram) as conclusões mais preocupantes? 

As análises revelaram um conjunto recorrente de problemas graves:

a) Ocupação de áreas de risco

Autorização e regularização de ocupações em áreas sujeitas a inundações, deslizamentos e erosão, sem avaliação adequada dos riscos e sem medidas mitigadoras.

b) Fragilidade dos estudos técnicos socioambientais

Estudos elaborados de forma superficial e fragmentada, sem análise integrada dos aspectos hidrológicos, ecológicos e sociais, em desacordo com os requisitos legais mínimos.

c) Licenciamento irregular em APPs

Expedição de licenças ambientais e alvarás de construção em áreas que deveriam permanecer protegidas conforme determina o Código Florestal.

A emissão indiscriminada de licenças provoca um efeito cascata de danos ambientais e sociais, entre os quais:

Aumento do risco de enchentes e inundações urbanas

Degradação da qualidade da água

Comprometimento de serviços ecossistêmicos essenciais

Exposição de famílias a riscos geotécnicos

Dificuldade de reversão de situações consolidadas

Intensificação da litigiosidade administrativa e judicial

d) Impactos ambientais diretos

Edificações em margens de rios e lagos

Supressão de vegetação nativa

Impermeabilização de áreas de recarga hídrica

 

- Há municípios ou regiões que se destacam por algum aspecto específico?

Regiões com maior suscetibilidade a movimentos de massa e inundações merecem atenção especial. Nesses locais, a flexibilização das APPs tende a agravar significativamente o risco, colocando em perigo não apenas o patrimônio, mas a vida das pessoas. Não é possível destacar uma região.

- Qual a avaliação do resultado obtido? 

A avaliação do CME revela um cenário profundamente preocupante, marcado por desrespeito generalizado à Lei Federal n. 14.285/2021:

Redução sistemática da proteção ambiental em todas as leis analisadas por este Centro de Apoio.

Descumprimento dos requisitos legais mínimos, com falhas técnicas e jurídicas recorrentes.

Nenhuma das legislações avaliadas por este Centro de Apoio atendeu integralmente aos parâmetros exigidos pela legislação federal.


- Que medidas serão tomadas em relação aos resultados obtidos?

Respeitada a independência funcional dos membros do Ministério Público, algumas estratégias institucionais podem ser adotadas, parte delas a partir de atuação das Promotorias Ambientais espalhadas pelo Estado:

Atuação no STF: acompanhamento da ADI 7146.

Controle de constitucionalidade estadual: eventual propositura de ADI perante o Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

Inquéritos Civis e TACs: instauração de Inquérito Civil para verificar a adequação técnica e legal das leis municipais e, quando cabível, celebração de TAC para regularização da situação.

Ações Civis Públicas: propositura de ação civil pública visando à anulação de licenças e alvarás concedidos com fundamento em lei municipal inconstitucional.

Recomendações Administrativas: suspensão preventiva de licenças até revisão técnica e adequação da lei municipal.


terça-feira, 14 de abril de 2026

Sobre jornalismo, entrevista e fontes

 


A mídia local noticiou ontem: “Mais de 600 espaços públicos em Florianópolis podem ser concedidos à iniciativa privada”. 

Dei-me ao trabalho de analisar apenas a notícia no portal ND+: três fontes, todas da Prefeitura (prefeito mais duas secretárias municipais) e todas enaltecendo a medida. “A prefeitura afirma que o modelo segue práticas adotadas em outras cidades e tem potencial para incentivar o turismo e dinamizar o uso dos espaços públicos”, afirma a notícia. Nada dos chamados “outros lados” no jornalismo.

Mas vem mais: quem a mídia local entrevista de verdade hoje em dia? Cara a cara? Pergunto mais: quanto da produção diária ou semanal é composto de entrevistas cara a cara?

Há três semanas, em uma palestra, ouvi um fato absurdo. Quis fazer um artigo. A fonte era do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). Liguei. 16 jornalistas. Solicitaram que eu enviasse um e-mail. Enviei. Responderam. Entrevista presencial ou por telefone? Presencial, preferi. Na resposta, eu soube que a fonte me atenderia por telefone. Liguei, conversamos, e a fonte pediu que eu enviasse as perguntas. Suspirei. Enviei para outro e-mail indicado. Faz uma semana hoje. Já cobrei duas vezes.

O problema não só o MPSC. O problema é que tal lógica vale para órgãos públicos de todas as esferas. O poder graúdo e miúdo não se expõe. Os chefões não deixam. A mídia não cobra. Aceita o release, rebaixa (oculta) o debate público, que fica de braçada, inútil, nas redes sociais. Os jornalistas e as entidades representativas não berram. Desgastar os coronéis locais? Nunca! Tal realidade, piorada na pandemia de Covid-19, agora se assentou de vez.

Por que a entrevista jornalística cara a cara é importante? Tem zilhões de livros sobre isso. Mas resumo: é nela que o Outro tropica, gagueja, revira os olhos por querer e sem querer, mostra força, revela vulnerabilidade.

Escrevi um artigo sobre a entrevista jornalística: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/241140/Apuracao_redacao_e_edicao_jornalistica-Ebook_20out2022.pdf?sequence=1&isAllowed=y

A entrevista jornalística cara a cara é o sangue correndo no corpo do jornalismo. Em Santa Catarina, está sumindo. 

Na foto, o jornalista Marcos Faerman, um gigante da entrevista jornalística. Fotografia de Agilberto Lima.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A questão é civilizatória!



Ainda que não esteja mais acompanhando os debates sobre jornalismo ambiental, calhou de refletir sobre o tema ao ler o artigo da geógrafa Maria Adélia Aparecida de Souza, com outros dois autores, em publicação divulgada em janeiro pelo centenário de nascimento do geógrafo Milton Santos (Votante 09, da Biblioteca Submersa).

No artigo, Maria Adélia retoma a ausência de discussão crítica sobre uma questão apontada por Milton Santos, a “questão ambiental”, criada em Estocolmo nos anos 1970, e que evolui agora para outra, a “questão climática” ou o “aquecimento global”, maior bandeira ideológica contemporânea a confundir processos e dinâmicas entre os conceitos de Terra (o planeta) e Mundo. A Terra, realidade geofísica, com sua essência de tempo longo; o Mundo, realidade histórica, de tempo curto, com “práticas e ações sociais organizadas e hierarquizadas que degradam e interferem na manutenção da vida humana em todo o planeta”, escreve Maria Adélia, concluindo: “O nome disso é Questão Civilizatória e não Questão Ambiental, Climática ou Aquecimento Global”. 

Maria Adélia critica a comunicação global em todo o planeta que insiste neste desvio conceitual e epistemológico, naturalizando e escamoteando os problemas graves da humanidade como a pobreza, a fome extrema e as desigualdades socioespaciais. Isso, afirma, nos custará caro. 

No artigo, ela menciona ainda conceitos fundadores da obra de Milton Santos e o papel dos homens pobres e lentos, que escapam ao totalitarismo e à racionalidade da globalização.

Foi a leitura de Milton e de Maria Adélia que me guiou no mestrado em Geografia na UFSC, resultando no livro "Quando a Palavra Sustenta a Farsa: o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável" (2006), motivado pela crítica à “questão ambiental”. Agora, vem, carregada de ideologia, a “questão climática”. Há que fazer a crítica também no jornalismo.

A publicação sobre o centenário de nascimento do geógrafo Milton Santos como artigo de Maria Adélia está aqui: https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/wp-content/uploads/2026/01/Volante-09-Milton-Santos.pdf

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Direito ao jornalismo



O jornalismo tombou em Santa Catarina e todos os dias eu sofro duplamente por esse fato. A primeira, a falta que eu sinto do jornalismo; a segunda, a indiferença social perante o nosso fazer decaído. 

Dias atrás, vi trecho de uma entrevista do ex-governador Carlos Moisés na qual ele fala sobre a atuação da imprensa no governo Jorginho Mello e define assim o cenário: “Isso aí é assustador. Parece que não é da República isso”, afirma, ao se referir ao fato de vários jornalistas antes em veículos de comunicação hoje se dedicarem à propaganda para o governo por conta de parcerias, convênios e contratos. 

Quem, nos círculos de poder, toca nessa ferida supurada? FENAJ, Sindicato dos Jornalistas, Associação Catarinense de Imprensa? 

As denúncias sobre o rio de dinheiro público que irriga as empresas de mídia hegemônica do estado são inócuas. Não repercutem também entre partidos e mandatos progressistas, centrais sindicais, sindicatos, movimentos sociais. E é dinheiro para fazer propaganda, e não jornalismo. 

Nesta terça-feira, a Câmara Municipal de Florianópolis aprovou, em votação única, o Projeto de Lei que autoriza o município a privatizar espaços, ruas, praias e eventos na Capital, os chamados "naming rights". A mídia hegemônica local repercutiu, elogiou o modelo, ouviu a prefeitura já munida de perguntas vergonhosas para neutralizar a crítica e fim. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC) já havia permitido os "naming rights" em 2024. Uma década atrás, seria impensável não buscar ao menos uma fonte crítica ao projeto. A bancada de oposição na Câmara foi contrária, divulgou, mas as notas curtas de redes sociais caem no balaio das críticas ao prefeito Topázio Neto, outro irrigador de mídias que lhe interessam com dinheiro público. No final das contas, na avassaladora onda ultraliberal na prefeitura de Florianópolis e no governo do estado, ninguém produziu uma reportagem para explicar o problema de fundo dos "naming rights". E, se produzir, publicar onde?

A indiferença social impossibilita a construção de um projeto de jornalismo a serviço dos trabalhadores, com cobertura diária da vida da cidade. Assim, jornalistas como Maurício Frighetto, que comecei a acompanhar no Notícias do Dia das antigas, publicam excelentes reportagens em veículos de fora do estado, com na DW Brasil. E hoje mesmo li, na Agência Pública, reportagem denunciando que Jorginho Mello usou argumentos de uma auditoria paga por uma das maiores empresas de papel e celulose do país, a Klabin, para defender a exploração dos chamados campos de altitude, um ecossistema ameaçado da Mata Atlântica. Na dita imprensa hegemônica de Santa Catarina, somos diariamente espoliados desse bom jornalismo. Quem se importa?

Ontem encontrei por acaso e li o artigo “O direito à literatura”, de Antonio Candido. Ele afirma que pensar em direitos humanos tem um pressuposto: reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo. A partir de uma ideia do padre dominicano Louis-Joseph Lebret, o autor distingue os bens compressíveis (alimento, casa, roupa) dos bens incompressíveis (as coisas tidas como supérfluas). 

É bela a construção de Antonio Candido sobre a obra literária e a fruição da arte e da literatura como direito inalienável. Diz ele: “Quer percebamos claramente ou não, o caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos; e, em consequência, mais capazes de organizar a visão que temos do mundo”. O mesmo se pode dizer da obra jornalística como forma de conhecimento social com suas especificidades, como mostrou Adelmo Genro Filho em sua teoria marxista do jornalismo. Há que defender, então, o direito ao jornalismo. 

Idealizador da ideia do direito à cidade, Henri Lefebvre, em artigo no livro “Du Contrat de Citoyenneté”, publicado em 1990, lista o que nomeia como “Os novos direitos do cidadão”. Entre eles estão o direito à informação e o direito à expressão. Diz Lefebvre que um cidadão não deve nem pode ficar calado sobre o que o preocupa e que lhe diz respeito, mesmo que apenas indiretamente: “Isso é muito: todos os assuntos da sociedade preocupam todos os membros. Daí o direito de refletir, de falar, de escrever”. 

Tomada por esses sentimentos, fui dormir ontem pensando no jornalismo e no Vaqueirinho. Domingo passado, a notícia era que um homem havia morrido após o ataque de uma leoa. Mas a conselheira tutelar que o atendia há anos se manifestou, a imprensa foi atrás para reconstruir o fato e o homem então virou Gerson de Melo Machado, de 19 anos, o Vaqueirinho, e teve na morte direito a uma história que li em O Globo e na BBC News Brasil. Uma história que dá o que pensar sobre uma imensidão de mundos. Porque daquele jovem foi o que sobrou. Uma história contada por jornalistas. Um direito que nos é arrancado todo dia em Santa Catarina.

O papel da mídia hegemônica no processo de verticalização em Santa Catarina

  Uma boa pesquisa sobre o dito jornalismo praticado hoje pela mídia hegemônica de Santa Catarina, com análise de notícias, reportagens (ond...