A mídia local noticiou ontem: “Mais de 600 espaços públicos em Florianópolis podem ser concedidos à iniciativa privada”.
Dei-me ao trabalho de analisar apenas a notícia no portal ND+: três fontes, todas da Prefeitura (prefeito mais duas secretárias municipais) e todas enaltecendo a medida. “A prefeitura afirma que o modelo segue práticas adotadas em outras cidades e tem potencial para incentivar o turismo e dinamizar o uso dos espaços públicos”, afirma a notícia. Nada dos chamados “outros lados” no jornalismo.
Mas vem mais: quem a mídia local entrevista de verdade hoje em dia? Cara a cara? Pergunto mais: quanto da produção diária ou semanal é composto de entrevistas cara a cara?
Há três semanas, em uma palestra, ouvi um fato absurdo. Quis fazer um artigo. A fonte era do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). Liguei. 16 jornalistas. Solicitaram que eu enviasse um e-mail. Enviei. Responderam. Entrevista presencial ou por telefone? Presencial, preferi. Na resposta, eu soube que a fonte me atenderia por telefone. Liguei, conversamos, e a fonte pediu que eu enviasse as perguntas. Suspirei. Enviei para outro e-mail indicado. Faz uma semana hoje. Já cobrei duas vezes.
O problema não só o MPSC. O problema é que tal lógica vale para órgãos públicos de todas as esferas. O poder graúdo e miúdo não se expõe. Os chefões não deixam. A mídia não cobra. Aceita o release, rebaixa (oculta) o debate público, que fica de braçada, inútil, nas redes sociais. Os jornalistas e as entidades representativas não berram. Desgastar os coronéis locais? Nunca! Tal realidade, piorada na pandemia de Covid-19, agora se assentou de vez.
Por que a entrevista jornalística cara a cara é importante? Tem zilhões de livros sobre isso. Mas resumo: é nela que o Outro tropica, gagueja, revira os olhos por querer e sem querer, mostra força, revela vulnerabilidade.
Escrevi um artigo sobre a entrevista jornalística: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/241140/Apuracao_redacao_e_edicao_jornalistica-Ebook_20out2022.pdf?sequence=1&isAllowed=y
A entrevista jornalística cara a cara é o sangue correndo no corpo do jornalismo. Em Santa Catarina, está sumindo.
Na foto, o jornalista Marcos Faerman, um gigante da entrevista jornalística. Fotografia de Agilberto Lima.

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