segunda-feira, 1 de julho de 2024



Há 20 anos defendi, no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), minha dissertação, intitulada “O discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável: uma interpretação sob o ponto de vista geográfico”, com orientação do professor Nazareno José de Campos. Ela virou livro pela editora da mesma universidade, com o título “Quando a palavra sustenta a farsa: o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável”.

Percorri três diferentes áreas de conhecimento, Geografia, Jornalismo e Análise de Discurso, para a pesquisa. Abordei a origem do conceito, ligando-o aos debates sobre a relação entre sociedade e natureza no Brasil e, especificamente, em Santa Catarina. Para isso, trabalhei com a categoria de formação socioespacial, aliada ao entendimento do meio geográfico atual como um meio técnico-científico-informacional, no caminho da obra do geógrafo Milton Santos. No jornalismo, situei historicamente a apropriação da problemática ambiental pelos meios de comunicação, na perspectiva do jornalismo como forma de conhecimento da realidade cristalizada no singular, como ensina o mestre Adelmo Genro Filho. Para fazer a análise dos dois veículos de comunicação selecionados, o JB Ecológico (Jornal do Brasil) e o AN Verde (então encartado em A Notícia), optei pela linha francesa da Análise do Discurso.

Com a pesquisa, concluí que o discurso em geral sobre a natureza é, fundamentalmente, um discurso político, de poder, construído também a partir do espaço. Com base nessas relações de poder, o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável produz efeitos de sentido predominantemente empresariais, mesmo quando o sujeito-jornalista se propõe a formular um discurso sobre a preservação (intocabilidade) da natureza.

Observa-se que, de uma forma ou de outra, diferentes formações socioespaciais deixam vestígios no discurso jornalístico. Esses vestígios evocam manifestações concretas (desmatamento, poluição) da relação entre sociedade e natureza. O espaço geográfico, porém, é interpretado principalmente a partir da ótica dos atores hegemônicos ou do discurso da ciência. Sobra pouca ou nenhuma possibilidade para que outros atores sociais produzam suas próprias interpretações sobre os conflitos que se estabelecem nos diferentes lugares onde os discursos jornalísticos são formulados.

A dissertação está em https://pergamum.ufsc.br/acervo/203417

De lá para cá, aprofundei no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC minhas pesquisas sobre o espaço no jornalismo. Defendi a tese há quase cinco anos, em agosto 2019.

Hoje, uma nova farsa espreita, e 20 anos atrás eu já a citava: os tais mercados de carbono. O tema é ausente na mídia de Santa Catarina, mas, em veículos nacionais, está aparecendo com mais frequência.

Temas, como diria o Senhor Spock, fascinantes!

quarta-feira, 29 de maio de 2024

O papel dos veículos independentes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul

 

Reprodução Brasil de Fato -  Vitor Shimomura / Brasil de Fato

Veículos independentes como o Sul 21, Brasil de Fato RS, Agência Pública e Intercept Brasil, entre outros, estão cumprindo um papel dos mais relevantes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul. Os quatro operam à margem da mídia hegemônica, que se refestela com recursos públicos e faz cada vez menos jornalismo. Os veículos citados trouxeram ao debate fatos ignorados, ocultados ou mal divulgados pela imprensa tradicional, mais preocupada em tentar blindar a incompetência de prefeitos e do governador do estado. Entre esses fatos estão aqueles caros ao jornalismo ambiental.

O Sul21, no dia 6 de maio, na reportagem intitulada “Tragédia histórica expõe o quanto governo Leite ignora alertas e atropela política ambiental”, assinada por Luciano Velleda, (bit.ly/3wRHDXE), detalha as críticas de organizações não-governamentais ao governo do estado em relação às mudanças no Código Estadual do Meio Ambiente e à iniciativas como a construção de barragens em áreas de preservação da natureza.

O Brasil de Fato RS tem publicado várias reportagens a partir da periferia de Porto Alegre, ouvindo populações empobrecidas que perderam o pouco que tinham e enfrentarão dificuldades inimagináveis para recompor o cotidiano. Uma delas foi a reportagem intitulada “Em bairro 'esquecido' de Porto Alegre (RS), enchente faz emergir solidariedade” (bit.ly/3wJ7otf), assinada por Murilo Pajolla e publicada no dia 27 de maio.

Outra reportagem do Brasil de Fato RS, intitulada “Com 180 mil pessoas atingidas pela enchente, Canoas tem atendimento do CRAS interrompido” e assinada por Clara Aguiar em 21 de maio (https://abrir.link/gwxvN), repercutiu e serviu de base para denúncia junto ao Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS). A repórter, em sua conta na rede social Instagram (@claguiar), avalia a repercussão do relato sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias vítimas da enchente ao tentarem se cadastrar no CadÚnico em Canoas, município vizinho de Porto Alegre. O cadastramento é essencial para que pessoas atingidas possam ter acesso aos benefícios do governo estadual e federal. “O jornalismo de impacto desempenha um papel crucial especialmente nesse momento em que milhares de vítimas da enchente buscam auxílio e informações confiáveis”, comenta Clara Aguiar na postagem.

Com o título “O passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as autoridades” (bit.ly/4bBFzls), o Intercept Brasil divulgou reportagem assinada por Paulo Motoryn e Marcelo Soares no dia 15 de maio revelando grave conflito de interesses: uma das empresas responsáveis pela manutenção do sistema de contenção de inundações de Porto Alegre tem, entre seus sócios, um ex-funcionário da prefeitura que, por dois anos, foi o responsável por sua fiscalização.

No dia 22 de maio, a Agência Pública divulgou a reportagem intitulada “Militares e políticos sem experiência estão à frente da Defesa Civil em cidades do RS” (bit.ly/3VkpXNQ), assinada por Rafael Oliveira, tendo, para isso, analisado o orçamento empenhado para a Defesa Civil por esses municípios e pelo estado nos últimos três anos. Os dados foram extraídos diretamente do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), abastecido pelos próprios governos estaduais e municipais.

As reportagens mencionadas são exemplos do conjunto da cobertura dos quatro veículos, que disponibilizam, em suas páginas, outros textos tão significativos quanto os acima citados.

A designação de imprensa/jornalismo tradicional, também chamada de convencional, faz referência aos grupos e empresas controladoras do setor no Brasil. Sobre o jornalismo independente, há inúmeras pesquisas que investigam o tema, sendo uma delas o trabalho de M. Silva (2017), que mapeia 30 iniciativas criadas entre 2013 e 2015 no Brasil, por ela denominadas novas experiências de jornalismo. Segundo a autora, as expressões geralmente aplicadas a esse tipo de iniciativa – jornalismo independente, jornalismo alternativo, mídia radical, mídia contra-hegemônica – não dão conta de toda a variedade de propostas que compõem tais iniciativas.

Este artigo toma o papel da imprensa tradicional/hegemônica como o de manutenção da ordem social e, em contrapartida, o da imprensa independente/alternativa/contra-hegemônica como o de crítica a esta ordem para a construção de outro modo de organização social. Os quatro veículos citados, em maior ou menor grau, explicitam essa perspectiva, e de forma concreta trazem ao fazer e ao discurso jornalístico um conjunto de temas, pontos de vista e fontes invisibilizadas ou negligenciadas no debate público.

Nesta direção, prestam-se ao exercício do direito à fala e à escrita muitas vezes proscrita na imprensa tradicional.

Idealizador da ideia do direito à cidade, Henri Lefebvre, em artigo no livro “Du Contrat de Citoyenneté”, publicado em 1990, lista o que nomeia como “Os novos direitos do cidadão”. Entre eles estão o direito à informação e o direito à expressão. Diz Lefebvre que um cidadão não deve nem pode ficar calado sobre o que o preocupa e que lhe diz respeito, mesmo que apenas indiretamente: “Isso é muito: todos os assuntos da sociedade preocupam todos os membros. Daí o direito de refletir, de falar, de escrever” (LEFEBVRE, 1990. p. 34).

É possível afirmar que no nascedouro da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul estão também esses direitos sufocados ou mal-ouvidos pelas autoridades hoje apressadas em se livrar de sua cota de responsabilidade. Que bom termos veículos como os quatro citados, entre outros, para trazer à tona fatos que, para essas autoridades, deveriam estar convenientemente esquecidos. Sobrevivem a duras penas e fazem jornalismo à altura desses duros tempos. 

Referências 

LEFEBVRE, HENRI et LE GROUPE DE NAVARRENX . Du Contrat de Citoyenneté. Paris: Editions Syllepse et Editions Periscope, 1990. 

SILVA, Mariana da Rosa. Tensões entre o alternativo e o convencional: organização e financiamento nas novas experiências de jornalismo no Brasil. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/185627. Acesso em: 28 maio. 2024. 

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente


sexta-feira, 17 de maio de 2024

Catástrofe climática e o Jornalismo de Ocorrência em Santa Catarina

Capa do caderno do Grupo NSC


A proporção da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul provoca uma pergunta: como Santa Catarina se prepara, levadas em conta suas próprias características socioespaciais, para enfrentar as consequências das mudanças climáticas? Procura em vão quem busca respostas nos grupos de mídia do estado. Esses grupos, organizados em associações, tecem seus interesses com as estruturas do estado, irrigando-se de dinheiro público e privado para fazer cada vez menos jornalismo. 

Parte expressiva do que virou a dita cobertura jornalística no estado vive de divulgação de BOs, os Boletins de Ocorrência. É um Jornalismo de Ocorrências, em que inexistem conexões entre elas e outras noticiadas antes ou depois, desprezando a compreensão de que não basta, no processo de mediação jornalística, limitar-se a ininterruptamente noticiar fatos sem inseri-los na totalidade dos fenômenos dos quais fazem parte e que os explicam.

A catástrofe no Rio Grande do Sul foi capa, por exemplo, do caderno do Grupo NSC (11 a 17 de maio) em abordagem previsível, a solidariedade: 

A SOLIDARIEDADE CATARINENSE

Santa Catarina se une para ajudar as vítimas da catástrofe climática que devastou o Rio Grande do Sul, deixou mais de 100 mortos, milhares de desabrigados e centenas de cidades tomadas pela água.

Quem estuda análise de discurso sabe que os sentidos se movimentam. Por vezes, uma mesma palavra, por estar inserida em diferentes formações discursivas, pode significar diferente, como no caso da palavra "terra" no discurso de um sem-terra ou de um latifundiário. Em outras vezes, palavras diferentes podem ter o mesmo sentido por se inscreveram em uma mesma formação discursiva. Isso é ilustrativo na pesquisa de MARIANI (2001) sobre os sentidos da solidariedade na mídia impressa. Ela verificou que a palavra forma uma rede parafrástica (de paráfrases) que inclui “caridade", "ajuda” "filantropia", "novas faces do bem” e “mão estendida". Apesar de serem palavras diferentes, a autora observa que na mídia o que pode resvalar para a produção de diferentes eleitos de sentidos muitas vezes se fecha em sentidos atomizados, produzindo ilusões de consenso social (p. 43). 

De modo geral, as coberturas sobre o Rio Grande do Sul mostram a ação dos solidários e solidárias e a ininterrupta videoteca da tragédia cotidiana nas cidades gaúchas destruídas. Mas por que a catástrofe ocorreu na relação com sucessivos crimes ambientais? Quem são os responsáveis? Leitores, ouvintes e telespectadores não terão respostas satisfatórias nesses grupos de mídia.

Essa ausência, na perspectiva de Santa Catarina, grita em um exemplo impactante. Uma notícia de fevereiro passado no site do Tribunal de Contas de Santa Catarina revela que cerca de 3 mil áreas de 100 municípios do estado têm maior risco de deslizamentos de solo e de inundações (1). O levantamento realizado apontou o seguinte:

- ausência de órgãos de proteção e defesa civil formalizados em 13 deles

- ausência de Fundo Municipal de Proteção e Defesa Civil (Fumdec) em 49 municípios

- ausência de Plano Municipal de Contingência (Plamcon) em 34

- ausência de locais cadastrados para uso como abrigos em 31 cidades

- 79 não realizam exercícios simulados conforme o Plamcon, ou seja, apenas 19 realizam 

- ausência de canais de comunicação com as famílias que residem em áreas de risco em 55 municípios 

- 74 municípios com áreas de risco mapeadas afirmaram não possuir cadastro das famílias residentes em áreas de risco

- ausência de fiscalização periódica das áreas com riscos de desastres por 36 cidades

- 72 municípios disseram que o art. 42-A da Lei 10.257/2001 — Estatuto da Cidade — não foi observado na edição ou na revisão do Plano Diretor

A notícia foi reproduzida de forma protocolar em sites noticiosos de Santa Catarina. Os dados não mereceram investigação, e são ainda mais alarmantes quando associados a um fato divulgado no “SC em Pauta” em 22 de fevereiro de 2024: mesmo sendo um estado propenso a diversos eventos climáticos extremos, Santa Catarina não tem um quadro efetivo na Defesa Civil. O órgão é formado basicamente por comissionados, terceirizados e alguns servidores cedidos, sendo nomeados como cargo de confiança (2).

Estão aí aspectos da pauta até agora invisibilizada nesse Jornalismo de Ocorrências. E isso sem contar o papel de Santa Catarina na destruição da legislação ambiental federal, iniciada nos mandatos do governador Luiz Henrique da Silveira, analisada brevemente em artigo intitulado “Código Florestal Brasileiro e Código Ambiental de Santa Catarina: legislação a favor do lucro” (3). Assim como fez o Rio Grande do Sul, Santa Catarina alterou o Código Ambiental em 2009 e em 2022. Uma análise dos retrocessos do novo código pode se lida na página da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) (4).

O resultado dessas mudanças aparecerá. E pegará a população (e o jornalismo) de surpresa.

A SITUAÇÃO DA MÍDIA EM SANTA CATARINA

Não há um diagnóstico recente e público da mídia em Santa Catarina para permitir uma análise mais detalhada e de interesse para jornalistas, professores e estudantes de jornalismo e interessados no apagão de coberturas fundamentais para o estado. Uma parte do diagnóstico aparece em artigo de Giovanni Ramos e Magali Moser, de junho de 2023, intitulado “O triste fim dos três grandes jornais catarinenses” (5). Ele mostra como sucumbiram três marcas regionais históricas: Diário CatarinenseA Notícia e Jornal de Santa Catarina

Há um aspecto da realidade regional que merece pesquisa profunda: o montante de recursos públicos que jorra para a Acaert (Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão) e a Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina (Adjori-SC). A Acaert  representa 260 emissoras de rádio e 24 emissoras de televisão associadas, congregando 100% das emissoras comerciais e educativas de Santa Catarina. A Adjori tem 104 empresas jornalísticas associadas, circulando em praticamente todos os 295 municípios de Santa Catarina.

Entre 2017 e 2019, foi criada e vendida como a maior campanha social de Santa Catarina a campanha da Acaert JEITO CATARINENSE, que mobilizou milhares de catarinenses em torno dos conceitos básicos de “cidadania”. A iniciativa contou com a parceria de instituições públicas e privadas tendo com um dos temas principais, por exemplo, uma campanha A FAVOR DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA (6). A reforma perversa, no governo Bolsonaro, atendeu o interesse empresarial e tem seus efeitos apresentados em uma série de artigos disponíveis para consulta na internet.

Entre 2020 e 2022, a Acaert assinou convênio inédito com o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e o Tribunal de Contas, além da manutenção e aprimoramento do convênio com a Secom (governo do estado) e a Assembleia Legislativa (Alesc). Ou seja, há um enlaçamento da Acaert com todas as estruturas de poder do estado. 

Para compreender o tamanho desse enlaçamento, um exemplo foi a renovação, em 2020, do convênio Alesc e Acaert para divulgação de notícias do Legislativo em todas as emissoras de rádio e televisão do estado.

O contrato está disponível em link no final deste artigo (7). Ele não menciona valores, mas basta uma procura rápida no site da Alesc para localizar centenas de contratos. A palavra “rádio” traz 41 páginas com contratos (8). Algumas perguntas merecem resposta:

-Quanto somam os contratos ao longo de cinco anos de repasses para um convênio no qual a Acaert indica os beneficiários?

-Quanto a Alesc destina para veículos consolidados de mídia independente e fora da alçada da Acaert e da Adjori, como, em Florianópolis, por exemplo, o Portal Desacato e o Portal Catarinas?  

Ou o dinheiro que irriga Francisco para defender a Reforma da Previdência não irriga Chico para mostrar seus efeitos nefastos?

Além dessas indagações, seriam relevantes análises sobre o conteúdo do material produzido pela Alesc distribuído por essas rádios e sobre o conteúdo geral produzido por elas. Se existem, não foram localizados. Mas um rápido giro pelo noticiário revela que, do ponto de vista jornalístico, não respeitam sequer a regra mais básica do jornalismo liberal, que é “ouvir o outro lado”, cotidianamente criminalizando as lutas populares e sindicais. Estão aí temas gritando por pesquisas de mestrado e doutorado.

É importante destacar que os grupos de mídia de Santa Catarina também recebem recursos públicos vindos das prefeituras para divulgação dita institucional, montante igualmente desconhecido. 

Não nos enganemos. O cenário aqui esboçado é um projeto gestado e cuidadosamente mantido por quem lucra com a mentira, a ideologia e a desinformação. Resta-nos revelar o que se vê pelas frestas. E recordar das palavras do jornalista Marcos Faerman, sempre:

Manifesto de libertação da palavra. 

A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la. Esta linguagem não é uma fuga. É o único caminho para nos levar à débil captação de uma sociedade e de suas contradições. E da única coisa que interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.


Notas:

1-https://www.tcesc.tc.br/levantamento-do-tcesc-revela-que-municipios-catarinenses-com-areas-de-risco-de-deslizamentos-e

2-https://scempauta.com.br/2024/03/22/mp-pede-explicacao-sobre-servidores-da-defesa-civil-governo-pagara-gratificacao-a-quem-atuar-na-dc-ub-se-aproxima-do-pl-em-blumenau-entre-outros-destaques/

3-https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/rebela/article/view/2770

4-https://apremavi.org.br/mpsc-ajuiza-acoes-para-impedir-alteracoes-no-codigo-ambiental-de-sc/

5-https://objethos.wordpress.com/2023/06/15/o-triste-fim-dos-tres-grandes-jornais-catarinenses/

6-https://www.acaert.com.br/noticia/39317/acaert-lanca-campanha-em-favor-da-reforma-da-previdencia-no-estado-e-nos-municipios-catarinenses

7-https://spectro.alesc.sc.gov.br/contratos/contrato/2626/download

8-https://transparencia.alesc.sc.gov.br/contrato.php?pagina=1&ano=&numero_contrato=&objeto=&contratada=r%E1dio&cpf_cnpj=&status=&tipo_contrato_id=&modalidade_id=Todas&valor_min=&valor_max=


Referência:

MARIANI, Bethania. Questões sobre a solidariedade. In: ORLANDI, Eni P. (Org.). Cidade atravessada. Os sentidos públicos no espaço urbano. Campinas: Pontes, 2001.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Eduardo Leite e a hora dos culpados

“Não é hora de procurar culpados”, afirmou o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, em coletiva de imprensa no domingo, dia 5, ao lado de Lula e representante do poder legislativo, quando foram anunciadas medidas frente à catástrofe que se abate sobre o estado vizinho (1). O artigo explora elementos para compreender a voracidade do capital imobiliário, o papel de prefeitos e governadores e o que a mídia tem a ver com isso, para quando chegar a hora dos culpados (chegará?).

O resgate de um cavalo caramelo ilhado sobre um telhado virou símbolo da conta que o Rio Grande está pagando por décadas de descuido planejado contra a natureza. Mas há outro símbolo tão ou mais potente. Ele aparece em uma notícia publicada no site da Prefeitura de Porto Alegre. É uma foto (abaixo) que exibe 11 rostos sorridentes, entre eles o de Leite, do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, e do vice, Ricardo Gomes, no leilão da Bolsa de Valores de São Paulo ocorrido em 6 de fevereiro passado que confirmou investimento de R$ 350 milhões no Cais Mauá graças a uma parceria-público-privada (PPP) (2). A palavra que define o empreendimento é bem conhecida em Florianópolis, “revitalização”, e o projeto, também na foto abaixo, não é diferente das banalidades construtivas vendidas no litoral catarinense como excepcionalidades quando excepcional mesmo é a paisagem agora irreconhecível e prestes a ser privatizada. A imagem do projeto está em uma reportagem do Portal G1-RS publicada no final de 2021 saudando a iniciativa (3). O “Coletivo Cais Cultural Já” lançou nota criticando o leilão do Cais do Porto, defendendo proposta alternativa de promoção de atividades culturais sem necessidade de privatização da área (4). 

Extraído do site da Prefeitura de Porto Alegre


Extraído de reportagem do Portal G1-RS 


Lá em 2019, um artigo de Opinião no GZH assinado pelo arquiteto Anthony Ling, editor do site Caos Planejado, clamava: "Prefeito, derrube o muro da Mauá!" (5). Vale citar um trecho: “O risco que deve se levar em consideração é de uma lâmina de centímetros de água a cada meio século, dado que a chance de uma enchente como a de 1941 é de uma vez a cada 1,500 anos. Atingir a altura ainda maior do atual Muro da Mauá é próximo do impossível”. 

O muro da Mauá integra o sistema de proteção de Porto Alegre e foi construído depois da grande enchente de 1941. Várias reportagens nos últimos dias mostraram falhas no sistema, as quais, neste triste maio de 2024, pioraram a situação de Porto Alegre (6).

O papel da administração de Leite e Melo na catástrofe ainda está por ser contado, mas boas pistas aparecem em notícias no site da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), que completou 50 anos em 2021. Uma delas teve repercussão no combativo veículo de mídia independente Sul21, mostrando, por exemplo, que no primeiro mandato, em 2020, Leite aprovou na Assembleia Legislativa a Lei 15.434, chamada de "Novo Código Estadual do Meio Ambiente", suprimindo ou flexibilizando mais de 500 artigos e incisos do Código Estadual criado em 2000 e afrouxando regras de proteção ambiental dos biomas Pampa e Mata Atlântica (7). Essa é apenas uma das medidas do governador citadas na reportagem, todas com alto potencial de impacto ambiental negativo no estado. 

É neste quadro que deve ser lida a notícia no GZH segundo a qual empresários sugeriram a Leite buscar especialista em catástrofes para ajudar na reconstrução do estado (8). Segundo a notícia, tal especialista seria pessoa ou empresa, sendo citado o exemplo da reconstrução de New Orleans, nos Estados Unidos, depois da passagem do furacão Katrina, em 2005. Caso a ideia avance, sugeriram os empresários, seria constituída uma parceria público-privada (PPP) para executar o projeto, além de usar os recursos federais prometidos (8). Isso em um estado com várias universidades federais onde se acumulam pesquisas fundamentais para sinalizar outro caminho de reconstrução das cidades. Mas tragédias deste alcance sempre rendem grandes negócios e grandes parcerias.

Nos últimos dias, na maior parte da cobertura jornalística da mídia hegemônica, a que chega à maioria da população, a lógica operada é aquela apontada por Perseu Abramo em seu clássico texto “Padrões de manipulação na grande imprensa” (9):

1-Padrão de ocultação  um deliberado silêncio sobre determinados fatos da realidade.

2-Padrão de fragmentação – o todo real é estilhaçado, despedaçado, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, na maior parte dos casos desconectados entre si, despojados de seus vínculos com o geral, desligados de seus antecedentes e de seus consequentes no processo em que ocorrem, ou reconectados e revinculados de forma arbitrária e que não corresponde aos vínculos reais, mas a outros ficcionais, e artificialmente inventados.

3-Padrão da inversão – fragmentado o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados, esse padrão opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial da outra realidade.

4-Padrão da indução – a hábil combinação dos casos, dos momentos, das formas e dos graus de distorção da realidade submete, no geral e no seu conjunto, a população à condição de ser excluída da possibilidade de ver e compreender a realidade real e a consumir uma outra realidade, artificialmente inventada.

Segundo Abramo, o jornalismo de radiodifusão (TV e rádio) adota ainda um padrão que se divide em três momentos básicos, como se fossem três atos de um espetáculo, de um jogo de cena:

1 – O Primeiro Momento, ou 1ª Ato, é o da Exposição do Fato. Submetido a todos os padrões gerais de manipulação, o fato é apresentado sob os seus ângulos menos racionais e mais emocionais, mais espetaculares e mais sensacionalistas. 

2 – O Segundo Momento, ou 2º Ato, é o da Sociedade Fala. As imagens e sons mostram detalhes e particulares, principalmente dos personagens envolvidos. Eles apresentam seus testemunhos, suas dores e alegrias, seus apoios e críticas, suas queixas e propostas.

3 – O Terceiro Momento, ou 3º Ato, é o da Autoridade Resolve. Se se trata de um fato “natural” (incêndio, tempestade, enchente), a autoridade anuncia as providências, isto é, as soluções já tomadas ou prestes a serem tomadas. Se se trata de fato social, a autoridade reprime o Mal e enaltece o Bem, e também anuncia as soluções já tomadas ou a tomar para as duas situações. Ou seja, tudo está se resolvendo. Não é preciso mudar o rumo.

Na atual enxurrada informativa sobre o horror no Rio Grande do Sul, raros e de baixa visibilidade e audiência serão os veículos a ligar os pontos para mostrar que a catástrofe não é “natural”. 

Tomara que os movimentos populares e sindicais do Rio Grande do Sul elaborem e distribuam aos milhares materiais impressos ligando os pontos e rompendo a lógica dos padrões apontados por Abramo. Não adianta desvendar esses fatos na internet. Como aconteceu com o Orkut, todas as postagens hoje fundamentais para compreender a catástrofe um dia virarão pó de algoritmos. A lembrança será a da Fúria da Natureza, e não a lembrança da Fúria dos que a destroem.

É nesse sentido que Eduardo Leite está certo. Não é preciso procurar os culpados.


Links: 

1-https://www.cartacapital.com.br/politica/nao-e-hora-de-procurar-culpados-pela-tragedia-no-rio-grande-do-sul-diz-eduardo-leite/

2-https://prefeitura.poa.br/gp/noticias/leilao-confirma-investimento-de-r-350-milhoes-no-cais-maua

3-https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2021/11/25/projeto-de-revitalizacao-do-cais-maua-e-apresentado-em-porto-alegre-veja-imagens.ghtml

4-https://www.brasildefators.com.br/2024/02/09/coletivos-lancam-nota-criticando-o-leilao-do-cais-maua-de-porto-alegre

5-https://gauchazh.clicrbs.com.br/opiniao/noticia/2019/04/prefeito-derrube-o-muro-da-maua-cjux1bhv0012501ro08y91nga.html

6-https://www.brasildefato.com.br/2024/05/06/falhas-na-manutencao-do-sistema-de-protecao-teriam-agravado-a-maior-inundacao-da-historia-de-porto-alegre

7-https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2024/05/tragedia-historica-expoe-o-quanto-governo-leite-ignora-alertas-e-atropela-politica-ambiental/

8-https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/marta-sfredo/noticia/2024/05/empresarios-sugerem-a-leite-buscar-especialista-em-catastrofes-para-ajudar-na-reconstrucao-do-rs-clvx2qjbt00e8011ht8q0yk5w.html

9-https://biblioteca.clacso.edu.ar/Brasil/fpa/20170912055155/pdf_1475.pdf



terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Engordamento de praia: a miséria da política no jornalismo catarinense


Dois colunistas catarinenses tiraram o dia 8 de fevereiro para atacar o professor do Departamento de Botânica da UFSC Paulo Horta. Motivo: um vídeo publicado por Horta em rede social posicionando-se de forma crítica ao engordamento da praia de Jurerê, no Norte da Ilha de Santa Catarina. O pesquisador alerta para os impactos ambientais e a falta de debate sobre a obra com a sociedade. O fato revela a miséria da política e também do jornalismo catarinense.

A coluna de Marcos Schettini considera o alargamento de praias um favor ao turismo e abre com 13 linhas de elogios a Vinicius Lummertz e ao prefeito de Florianópolis, Topázio Neto. Lummertz exerceu cargos no setor turístico e em seu site nomeia-se “uma das maiores autoridades em Turismo do país”.

No restante da coluna, Schettini, em 12 notas, chama Horta de “alucinado”, “falastrão”, “matraca”, “tagarela” e “analfabeto”. Para Schettini, o doutor em Ciências Biológicas pela USP e pós-doutor em Ecologia Marinha pela Plymouth University, no Reino Unido, e pelo Centro de Ciências Marinhas da Universidade do Algarve, em Portugal, “não tem ideia do que diz”, “cria discurso tolo, age como um ermitão boca-aberta, fora da realidade”, e, “se fumou algo, deve parar”. A coleção de injúrias não é interrompida por qualquer informação relevante sobre a obra de engordamento da praia. 

Já Marcelo Lula, em sua coluna, critica Horta sem usar impropérios gratuitos, mas faz uma afirmação taxativa: “Paulo Horta é conhecido em Florianópolis por ser contra qualquer obra que traga desenvolvimento”. 

Desde o início dos anos 1980, quem é crítico ao modelo de desenvolvimento predatório de Florianópolis é chamado, nas colunas jornalísticas, “do contra”, “ecochato”, “militante”, “ideólogo da esquerda”, “ativista da esquerda”, “da turma do atraso”. A base ideológica dos ataques, calcada nos interesses dos grupos dominantes da capital, é a “vocação turística” de Florianópolis. Desenvolvo esse assunto em artigo intitulado “Sob ataque da imprensa: o papel dos 'contra' na defesa de Florianópolis (SC)”, publicado no livro “Confrontos na Cidade: luta pelo Plano Diretor nos 20 anos do Estatuto da Cidade” (2022).

Nas duas colunas, aparece um elemento em comum: a defesa do processo de licenciamento ambiental. Schettini afirma: “As documentações ambientais foram todas garantidas e a obra acionada”. Já Lula detalha: “A questão é que, para a realização da obra, foi necessário um projeto; depois desse, uma série de licenciamentos junto ao Instituto do Meio Ambiente (IMA), Capitania dos Portos, Superintendência do Patrimônio da União (SPU), todos órgãos responsáveis por liberar ou não uma obra. A questão é: será que esses órgãos estão todos errados, e apenas o professor está certo? Será que os profissionais desses órgãos colocariam seus registros profissionais em risco para atender a uma obra que, segundo Horta, trará prejuízos ambientais? A resposta é óbvia: claro que não!”. 

Pois agora. Licenciamentos são infalíveis? Basta pesquisar os recentes crimes ambientais no Brasil para compreender que eles falham. E mais: a legislação tem flexibilizado exigências e reclassificado o grau de risco de empreendimentos causadores de impacto ambiental, tendo Santa Catarina na vanguarda dos retrocessos. No caso do alargamento da praia de Jurerê, o primeiro edital para a obra foi suspenso após o Tribunal de Contas de Santa Catarina apontar irregularidades. Outros questionamentos são a ocupação desenfreada das praias, a falta de fiscalização e o uso de recursos públicos para obras derivadas do mau uso da faixa litorânea. Frente a isso, como um jornalista ou colunista se calça? Entre os fazeres está entrevistar quem tem propriedade para alertar, argumentar, questionar, apresentar alternativas.

A reportagem “Os prós e contras de alargar as praias de Santa Catarina”, do jornalista Maurício Frighetto para a DW Brasil, e a reportagem “SC vira símbolo do alargamento de praia e amplia orla até sem obra”, de Italo Nogueira para a Folha de S. Paulo, vão nessa linha. E elas apontam a miséria do jornalismo catarinense: reportagens importantes não têm mais onde sair no estado, e acabam em veículos de comunicação de fora de Santa Catarina. 

Essa miséria anda a par com outra, a miséria política. A prefeitura de Florianópolis e o governo do estado irrigam a mídia local com recursos. Nada de novo nisso, mas abriu-se uma fase em que o recurso ou implica um fecho completo na crítica ou uma deslavada campanha em prol da imagem dos governantes. Agora, não só não ouvem o dito “outro lado” como caçam postagens nas redes sociais para sobre elas amealhar injúrias, tentando desmerecer as vozes críticas.

Artigo publicado na página do jornal britânico The Guardian no dia 7 de fevereiro tem muito a dizer ao jornalismo catarinense. O texto se refere ao contexto da eleição nos Estados Unidos e afirma o seguinte: “A imprensa cobre a campanha de 2024 como se o clima não estivesse nas urnas, mas 56% dos eleitores dos EUA estão ‘preocupados’ ou ‘alarmados’ com a crise”. O ano passado, observa o artigo, foi o mais quente de que há registo – e os cientistas alertam que a queima de petróleo, gás e carvão deve ser rapidamente eliminada se quisermos preservar um planeta habitável, mas jornalistas muitas vezes não relacionam um fato com o outro. 

Destaco outro trecho:

“Mas há uma mudança fácil de fazer: perguntar aos candidatos o que vão fazer em relação à crise climática; especificamente, qual é o seu plano para eliminar rapidamente o petróleo, o gás e o carvão, como a ciência diz ser imperativo. Os jornalistas também podem perguntar aos candidatos se estes recebem dinheiro da indústria dos combustíveis fósseis, o principal motor da crise climática; e pergunte aos candidatos quais soluções eles têm para os eleitores que sofrem com o calor mortal e outros extremos climáticos”.

Em Santa Catarina, onde há espaço para isso e quem fará essas perguntas incômodas?

Há que tornar concreta uma experiência de comunicação/jornalismo efetivamente contra-hegemônica que supere a mera crítica à mídia hegemônica e as tentativas vãs de nela abrir espaço para confrontar os discursos oficiais e empresariais. Porque, no quadro atual, isso é deitar vinho velho em odres mais velhos ainda. 

O artigo do The Guardian  está em https://www.theguardian.com/commentisfree/2024/feb/07/climate-change-presidential-election-media-coverage

Atualização: notícia no Canal MPF sobre as ocupações ilegais em Jurerê, assinada pelo jornalista Delmar Gularte, mostra como é possível ouvir diferentes opiniões sem deixar de mostrar os fatos e permitir a quem assiste interpretar a informação.  Confira em: https://youtu.be/ViHSs2RtXEM?si=8Dck6pFL9EbRMAKt



terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Artigo analisa a cobertura jornalística da rua na perspectiva da Antropologia Urbana



A revista de estudos multidisciplinares Monumenta publicou meu artigo intitulado “Etnografia de e na rua: desvelando a cidade na cobertura jornalística”, para o qual pesquisei 10 anos (2012 a 2022) de  cobertura  jornalística do  jornal ND, do  Grupo ND, sobre a Avenida Hercílio Luz, em Florianópolis. Também fiz oito saídas na Avenida Hercílio Luz, em diferentes dias de semana e horários, entre os dias 28 de maio de 2022 a 7 de janeiro de 2023.

Os  objetivos foram identificar 1) os temas de interesse e 2) os temas ausentes no jornalismo local, mas potencialmente capazes de levar a reflexões sobre a cidade a partir da cobertura da e na rua na perspectiva da antropologia urbana. Para caminhar nessa área, contei com o conhecimento da professora Viviane Vedana, minha supervisora em estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC. 

De tudo o que li (foram 494 registros encontrados), destaco uma reportagem do jornalista Paulo Clóvis Schmitz, na edição  de  24/25  de  fevereiro  de  2018,  intitulada “Todos  disputam  a  avenida”. A reportagem registra três importantes aspectos: 1) por sua constituição histórica, a  avenida  nunca  foi  lugar  de  unanimidades;  2) a  localização e as condições para a sociabilidade ali são únicas em Florianópolis e 3) a apropriação do espaço pelos bares e frequentadores  se  deu  “por  conta  própria”,  sem regulamentação balizadora prévia por parte da Prefeitura, o que ocorre posteriormente. Impressionante como, em duas páginas, o repórter consegue dar conta do passado, do presente e ainda adiantar os futuros conflitos de uso na Hercílio Luz. Faz o que busco teorizar em ensaio que escrevi sobre o método na reportagem, em https://itcidades.org.br/ensaio-discute-o-metodo-de-reportagem-nas-coberturas-de-cidade/. É um exemplo de “mão mandona” no jornalismo. 

Quem deseja conhecer a trajetória do PC pode clicar em https://www.youtube.com/watch?v=5aZ2VgGhwi0. Nós, da Revista Pobres & Nojentas, o entrevistamos para o Projeto Repórteres SC.

O meu artigo está em https://monumenta.emnuvens.com.br/monumenta/article/view/189/76

Outro está em gestação focando na cobertura sobre os conflitos de uso nos bares, que apareceram em nada menos que 63 edições do jornal no período analisado.

Esses artigos fazem parte de um projeto maior que batizei de “A Rua no Jornalismo”, nome do livro que pretendo lançar ainda em 2024. 


Alerta para o jornalismo ambiental: minoria compreende jargões ambientais



Notícia publicada na página do jornal britânico The Guardian no dia 24 de janeiro dá o que pensar ao jornalismo ambiental. Ela apresenta o resultado de um estudo feito por uma empresa e uma agência de comunicação no Reino Unido mostrando que apenas um quarto das pessoas interrogadas compreendia claramente o termo “verde” e aproximadamente o mesmo número conseguia descrever com precisão o que significava “sustentável”. Mesmo termos considerados de uso generalizado pelas empresas, como “amigo do ambiente” e “cultivado localmente”, são compreendidos apenas por uma minoria de pessoas. A dificuldade de compreensão também atinge as iniciativas políticas governamentais orientadas para a redução de resíduos, como a proibição de talheres e pratos de plástico descartáveis. 

A notícia, disponível em bit.ly/4bkR3dq, informa que, apesar da confusão em torno de alguns dos termos-chave, a investigação mostra um apoio extremamente amplo às questões: “nove em cada 10 consumidores consideraram importante que as empresas e marcas falassem sobre as suas iniciativas de sustentabilidade e 68% dos inquiridos eram mais propensos a comprar de uma empresa que tinha uma estratégia ambiental clara em vigor”.

A notícia cita ainda a opinião de Jamie Peters, da Friends of the Earth, para quem palavras-chave ambientais estão sendo sequestradas e mal utilizadas por empresas de petróleo e gás, que as utilizam para truques de marketing, e também pelo governo. 

Aqui no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente desenvolvia, desde 1992, a pesquisa "O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável", mas a última foi em 2012. Naquele ano, o indicador mais relevante foi o número de pessoas que, 20 anos antes (1992), não sabiam mencionar sequer um problema ambiental na sua cidade ou no seu bairro, número que diminuiu para 10% em 2012, em relação aos 46% de 1992. A última pesquisa realizada está disponível em bit.ly/49iPhrD

É possível extrapolar o dado colhido no Reino Unido para interesses empresariais para discutir a escrita jornalística sobre a relação entre sociedade e natureza. A realidade brasileira não deve ser diferente da britânica, com boas chances de se apresentar ainda pior se a pesquisa fosse realizada aqui.

As pautas do jornalismo ambiental giram em torno de conceitos/práticas sobre a a crise climática, a sustentabilidade, o mercado de carbono, e há um imenso ponto de interrogação sobre o entendimento, por parte de leitores, ouvintes e telespectadores, das notícias e reportagens sobre essas temáticas. 

Um caminho para a resposta aponta para o entendimento de que a palavra no e do jornalismo precisa nascer do cotidiano e da experiência do corpo vivida no espaço. O pensador francês H. Lefebvre afirma que, a partir da vida cotidiana, mudam a língua e as linguagens, nascem palavras novas, gírias, muitas vezes marginais em relação à linguagem oficial (LEFEBVRE, 1978, p. 94). Estudar a linguagem na vida cotidiana, afirma o autor, implica tomar também o que ela não diz, o que evita dizer, o que não pode nem deve dizer. Para ele, uma revolução precisa dar lugar a um novo espaço, a um novo cotidiano e a uma nova linguagem:  

Uma revolução que não dá lugar a um novo espaço não chega a realizar todo seu potencial; trava e não gera mudanças de vida, apenas modifica as superestruturas ideológicas, as instituições, os aparatos políticos. Uma transformação revolucionária se verifica por sua capacidade criativa, geradora de efeitos na vida cotidiana, na linguagem e no espaço, embora seu impacto não tenha que acontecer necessariamente no mesmo ritmo e com intensidade semelhante (LEFEBVRE, 2013, p. 112).

Hoje, premido pelas mudanças nas rotinas de trabalho, o jornalismo mal estuda e pouco se alimenta da linguagem da vida cotidiana, do repertório de falas e fazeres das ruas. Ali, no espaço geográfico, com seus conflitos e tensões, onde os jargões, inclusive ambientais, fariam sentido na experiência do corpo, ausentam-se o jornalismo e os jornalistas. 

Há então que revolutear a pesquisa, o ensino e o fazer, recuperar a rua, embrenhar o corpo no espaço para dali alimentar o texto.  A um jornalismo comprometido com a emancipação humana cabe a tarefa de, pela linguagem, tornar visíveis as práticas criadoras que, no espaço e no cotidiano, podem levar à transformação social, em especial nas pautas que nos são caras no jornalismo ambiental.

Referências:

LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Penísula, 1978.

LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Espanha: Capitán Swing, 2013.

Orelhões, me desculpem, não cheguei a tempo

Hoje, cavoucando em antigas edições do jornal O Estado , encontrei uma notícia de 1972 que anunciava a instalação dos primeiros orelhões em ...