sexta-feira, 15 de maio de 2026

O tombo do jornalismo catarinense

 


Concluí um artigo que recorre à entrevista e pesquisa em jornal impresso para relatar a ocupação ocorrida em setembro de 1984 na então Praça da Bandeira, hoje Tancredo Neves, em frente ao então Palácio do Governo, no Centro de Florianópolis, por famílias auto-denominadas “Sofredores da Rua”.

A ocupação ocorreu seis anos antes da bem-documentada Ocupação Novo Horizonte, em julho de 1990, considerada a primeira ocupação organizada de terras na capital catarinense, em um terreno público às margens da Via Expressa e onde hoje está o bairro Monte Cristo.

Aquela, ao contrário desta, pressionava por um conjunto específico de reivindicações – um pedaço de terra, um pouco de madeira e vagas para trabalhar – e ocupava provisoriamente uma praça, e não um terreno com o objetivo especifico de constituição de moradia, caso da Ocupação Novo Horizonte.

Fato marcante na pesquisa: a mudança drástica da cobertura jornalística sobre o tema.

A análise do jornal O Estado sobre aquele fato apresenta aspectos reveladores em relação às coberturas posteriores, como a da Ocupação Amarildo de Souza, em 2013/14, pelos jornais Diário Catarinense e Notícias do Dia, quando as notícias e reportagens, ao se referir à ação das populações empobrecidas sobre a terra, já não falam em ocupação, e sim em invasão.

Também é notável, na cobertura de O Estado, a referência ao conjunto de circunstâncias que levaram as famílias em situação de rua a ocupar a praça, como a expulsão do campo e as enchentes ocorridas no estado.

No caso da Ocupação Amarildo de Souza, a cobertura dos dois jornais mencionados moveu-se pela afirmação da vocação turística da Ilha, afetada pela presença daquelas famílias empobrecidas em uma área reservada para os interesses dos grupos dominantes, e pelo imperativo da propriedade privada, tratado como superior a qualquer outro direito, inclusive o direito à moradia.

Um exemplo na imagem: é uma belíssima reportagem de O Estado em 1989 de página inteira com uma notícia principal e três retrancas sobre migração e moradia.

Quando isso nos veículos de Santa Catarina na atualidade?

Que tombo, que tombo. Que silêncio.

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