Concluí um artigo que recorre à entrevista e pesquisa em jornal impresso para relatar a ocupação ocorrida em setembro de 1984 na então Praça da Bandeira, hoje Tancredo Neves, em frente ao então Palácio do Governo, no Centro de Florianópolis, por famílias auto-denominadas “Sofredores da Rua”.
A ocupação ocorreu seis anos antes da
bem-documentada Ocupação Novo Horizonte, em julho de 1990, considerada a
primeira ocupação organizada de terras na capital catarinense, em um terreno
público às margens da Via Expressa e onde hoje está o bairro Monte Cristo.
Aquela, ao contrário desta,
pressionava por um conjunto específico de reivindicações – um pedaço de terra,
um pouco de madeira e vagas para trabalhar – e ocupava provisoriamente uma
praça, e não um terreno com o objetivo especifico de constituição de moradia,
caso da Ocupação Novo Horizonte.
Fato marcante na pesquisa: a
mudança drástica da cobertura jornalística sobre o tema.
A análise do
jornal O Estado sobre aquele fato
apresenta aspectos reveladores em relação às coberturas posteriores, como a da
Ocupação Amarildo de Souza, em 2013/14, pelos jornais Diário
Catarinense e Notícias do Dia,
quando as notícias e reportagens, ao se referir à ação das populações empobrecidas sobre a terra, já não falam
em ocupação, e sim em invasão.
Também é notável, na cobertura de O Estado, a referência ao conjunto de
circunstâncias que levaram as famílias em situação de rua a ocupar a praça,
como a expulsão do campo e as enchentes ocorridas no estado.
No caso da Ocupação Amarildo de Souza, a cobertura dos
dois jornais mencionados moveu-se pela afirmação da vocação turística da
Ilha, afetada pela presença daquelas famílias empobrecidas em uma área reservada para os interesses dos
grupos dominantes, e pelo imperativo da propriedade privada, tratado como
superior a qualquer outro direito, inclusive o direito à moradia.
Um exemplo na imagem: é uma belíssima reportagem
de O Estado em 1989 de página inteira
com uma notícia principal e três retrancas sobre migração e moradia.
Quando isso nos veículos de Santa Catarina na
atualidade?
Que tombo, que tombo. Que silêncio.

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