quinta-feira, 27 de março de 2025

Grupos de mídia de Florianópolis silenciam conflitos de interesses públicos e privados na especulação imobiliária no litoral

Print screen de tela do "Já"

Causou repercussão em Florianópolis (SC) a notícia do veículo “Já”, de Porto Alegre (RS), sobre o projeto de construção da uma avenida nos Ingleses, norte da Ilha de Santa Catarina, com a justificativa de desafogar o trânsito na região, uma das mais frequentadas por turistas durante a temporada de verão. A reportagem foi publicada no dia 12 de março na aba temática “Ambiente Já” (https://www.jornalja.com.br/ambiente/uma-avenida-beira-mar-na-praia-dos-ingleses-o-que-ha-por-tras-do-projeto/).

O veículo, que completa 40 anos de existência em 2025, expõe que o projeto foi encomendado e “doado” pelo empresário Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do Costão do Santinho e do Costão Golf, ambos também no Norte da ilha. O fato é que a avenida, se aprovada e construída, facilitaria o projeto de expansão do Costão do Santinho. O principal obstáculo para o licenciamento, mostra o veículo, é a mobilidade na região onde, no verão, pode-se levar duas horas para vencer um trecho de dois quilômetros.

A notícia do “JÁ” expõe a frouxidão de tudo o que se entende por jornalismo na mídia de Florianópolis, incapaz de produzir notícias e reportagens sobre as consequências da voracidade imobiliária sobre o litoral do estado. 

O vereador de Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL), no Instagram, citou a notícia do “JÁ” e alfinetou: “Quem sabe estimula a imprensa local a cobrir o assunto, além das versões oficiais” (https://www.instagram.com/p/DHJhjUnR9W-/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA)

O portal ND+, do Grupo ND, trata do assunto em notícia intitulada “Projeto em Florianópolis prevê nova avenida para desafogar o trânsito no Norte da Ilha” e informa: “Em uma reunião na última quarta-feira (12), no Costão do Santinho, promovida pelo proprietário do resort, Fernando Marcondes de Mattos, com a presença do secretário municipal de Infraestrutura e Manutenção, Rafael Hahne, e das equipes de reportagem do Grupo ND, foram apresentados, em primeira mão, os detalhes deste plano”. Mas não há menção ao projeto de expansão do Costão do Santinho (https://ndmais.com.br/transito/projeto-em-florianopolis-preve-nova-avenida-para-desafogar-o-transito-no-norte-da-ilha/). 

A construção do texto ressalta a “doação” do empresário e informa que “(...) a nova avenida será construída no espaço hoje ocupado por parte da faixa de areia, aproveitando o engordamento feito em 2023”. Em 12 linhas no final do texto, um engenheiro e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e uma moradora expõe preocupações sobre o impacto ambiental da obra, mas o portal não desenvolve a abordagem. 

A CBN, do Grupo NSC, com o título “Florianópolis planeja nova avenida para melhorar mobilidade no Norte da Ilha”, entrevista o secretário Rafael Hahne, que menciona detalhes da obra citando apenas a Prefeitura (https://cbntotal.com.br/cotidiano/florianopolis-planeja-nova-avenida-para-melhorar-mobilidade-no-norte-da-ilha/). 

Os demais veículos limitaram-se a reproduzir a versão da Prefeitura, sem se referir à prática questionável de misturar interesse público com interesse privado nem produzir notícias ou reportagens capazes de explicar as conexões entre o investimento com recursos públicos, as alternativas para a mobilidade na região e os impactos da projetada avenida. Não fosse a iniciativa noticiosa do veículo do estado vizinho, passaria em branco mais uma demonstração da tibieza da mídia local no debate sobre o impacto socioambiental dos grandes empreendimentos que pouco a pouco vão destruindo a faixa litorânea.


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