sexta-feira, 28 de março de 2025

“Fala Campeche”, jornal a serviço da luta socioambiental em Florianópolis





Por Míriam Santini de Abreu - jornalista

O colega jornalista Silvio da Costa Pereira, sabendo do trabalho que temos feito em prol da memória do jornalismo alternativo/independente em Florianópolis, enviou exemplares do jornal impresso “Fala Campeche”. Silvio era um dos jornalistas que produziam o jornal. O “Fala Campeche” foi um marco por visibilizar as lutas do distrito, no Sul da Ilha de Santa Catarina, pela preservação ambiental.

Recebi um exemplar de 15 diferentes edições entre dezembro de 1997 e março de 2007. O jornal surgiu em julho de 1997 e, em março de 2007, a edição número 20 – a última disponível no lote –, comemorava os dez anos de existência e citava a impressão de 8 mil exemplares por edição.

Estão narradas ali as lutas da associação de moradores contra o projeto do IPUF para o Campeche, que desconsiderava a fragilidade ambiental do distrito, os embates na Câmara de Vereadores, a pesca da tainha, a fundação da rádio comunitária, a construção do primeiro prédio de cinco andares no bairro, o fim do Bar do Chico.

Vieram, com os jornais, fotos que mostram o Campeche daquele tempo. Dramática mudança de lá para cá a serviço da especulação imobiliária.

O livro “O campo de Peixes e os Senhores do Asfalto. Memória das lutas do Campeche”, de Janice Tirelli, Raúl Burgos e Tereza Cristina P. Barbosa (organizadores), cita o jornal “Fala Campeche” e recupera a memória do movimento comunitário do distrito, contribuindo com elementos históricos e técnicos sobre as lutas que marcaram as últimas décadas.

Vou deixar os exemplares recebidos aos cuidados da Hemeroteca Digital Catarinense, que com carinho cuida da memória do jornalismo catarinense, na atualidade definhando em silêncio.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Grupos de mídia de Florianópolis silenciam conflitos de interesses públicos e privados na especulação imobiliária no litoral

Print screen de tela do "Já"

Causou repercussão em Florianópolis (SC) a notícia do veículo “Já”, de Porto Alegre (RS), sobre o projeto de construção da uma avenida nos Ingleses, norte da Ilha de Santa Catarina, com a justificativa de desafogar o trânsito na região, uma das mais frequentadas por turistas durante a temporada de verão. A reportagem foi publicada no dia 12 de março na aba temática “Ambiente Já” (https://www.jornalja.com.br/ambiente/uma-avenida-beira-mar-na-praia-dos-ingleses-o-que-ha-por-tras-do-projeto/).

O veículo, que completa 40 anos de existência em 2025, expõe que o projeto foi encomendado e “doado” pelo empresário Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do Costão do Santinho e do Costão Golf, ambos também no Norte da ilha. O fato é que a avenida, se aprovada e construída, facilitaria o projeto de expansão do Costão do Santinho. O principal obstáculo para o licenciamento, mostra o veículo, é a mobilidade na região onde, no verão, pode-se levar duas horas para vencer um trecho de dois quilômetros.

A notícia do “JÁ” expõe a frouxidão de tudo o que se entende por jornalismo na mídia de Florianópolis, incapaz de produzir notícias e reportagens sobre as consequências da voracidade imobiliária sobre o litoral do estado. 

O vereador de Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL), no Instagram, citou a notícia do “JÁ” e alfinetou: “Quem sabe estimula a imprensa local a cobrir o assunto, além das versões oficiais” (https://www.instagram.com/p/DHJhjUnR9W-/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA)

O portal ND+, do Grupo ND, trata do assunto em notícia intitulada “Projeto em Florianópolis prevê nova avenida para desafogar o trânsito no Norte da Ilha” e informa: “Em uma reunião na última quarta-feira (12), no Costão do Santinho, promovida pelo proprietário do resort, Fernando Marcondes de Mattos, com a presença do secretário municipal de Infraestrutura e Manutenção, Rafael Hahne, e das equipes de reportagem do Grupo ND, foram apresentados, em primeira mão, os detalhes deste plano”. Mas não há menção ao projeto de expansão do Costão do Santinho (https://ndmais.com.br/transito/projeto-em-florianopolis-preve-nova-avenida-para-desafogar-o-transito-no-norte-da-ilha/). 

A construção do texto ressalta a “doação” do empresário e informa que “(...) a nova avenida será construída no espaço hoje ocupado por parte da faixa de areia, aproveitando o engordamento feito em 2023”. Em 12 linhas no final do texto, um engenheiro e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e uma moradora expõe preocupações sobre o impacto ambiental da obra, mas o portal não desenvolve a abordagem. 

A CBN, do Grupo NSC, com o título “Florianópolis planeja nova avenida para melhorar mobilidade no Norte da Ilha”, entrevista o secretário Rafael Hahne, que menciona detalhes da obra citando apenas a Prefeitura (https://cbntotal.com.br/cotidiano/florianopolis-planeja-nova-avenida-para-melhorar-mobilidade-no-norte-da-ilha/). 

Os demais veículos limitaram-se a reproduzir a versão da Prefeitura, sem se referir à prática questionável de misturar interesse público com interesse privado nem produzir notícias ou reportagens capazes de explicar as conexões entre o investimento com recursos públicos, as alternativas para a mobilidade na região e os impactos da projetada avenida. Não fosse a iniciativa noticiosa do veículo do estado vizinho, passaria em branco mais uma demonstração da tibieza da mídia local no debate sobre o impacto socioambiental dos grandes empreendimentos que pouco a pouco vão destruindo a faixa litorânea.


“Fala Campeche”, jornal a serviço da luta socioambiental em Florianópolis

Por Míriam Santini de Abreu - jornalista O colega jornalista Silvio da Costa Pereira, sabendo do trabalho que temos feito em prol da memória...