quarta-feira, 29 de maio de 2024

O papel dos veículos independentes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul

 

Reprodução Brasil de Fato -  Vitor Shimomura / Brasil de Fato

Veículos independentes como o Sul 21, Brasil de Fato RS, Agência Pública e Intercept Brasil, entre outros, estão cumprindo um papel dos mais relevantes na cobertura da catástrofe do Rio Grande do Sul. Os quatro operam à margem da mídia hegemônica, que se refestela com recursos públicos e faz cada vez menos jornalismo. Os veículos citados trouxeram ao debate fatos ignorados, ocultados ou mal divulgados pela imprensa tradicional, mais preocupada em tentar blindar a incompetência de prefeitos e do governador do estado. Entre esses fatos estão aqueles caros ao jornalismo ambiental.

O Sul21, no dia 6 de maio, na reportagem intitulada “Tragédia histórica expõe o quanto governo Leite ignora alertas e atropela política ambiental”, assinada por Luciano Velleda, (bit.ly/3wRHDXE), detalha as críticas de organizações não-governamentais ao governo do estado em relação às mudanças no Código Estadual do Meio Ambiente e à iniciativas como a construção de barragens em áreas de preservação da natureza.

O Brasil de Fato RS tem publicado várias reportagens a partir da periferia de Porto Alegre, ouvindo populações empobrecidas que perderam o pouco que tinham e enfrentarão dificuldades inimagináveis para recompor o cotidiano. Uma delas foi a reportagem intitulada “Em bairro 'esquecido' de Porto Alegre (RS), enchente faz emergir solidariedade” (bit.ly/3wJ7otf), assinada por Murilo Pajolla e publicada no dia 27 de maio.

Outra reportagem do Brasil de Fato RS, intitulada “Com 180 mil pessoas atingidas pela enchente, Canoas tem atendimento do CRAS interrompido” e assinada por Clara Aguiar em 21 de maio (https://abrir.link/gwxvN), repercutiu e serviu de base para denúncia junto ao Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (MPRS). A repórter, em sua conta na rede social Instagram (@claguiar), avalia a repercussão do relato sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias vítimas da enchente ao tentarem se cadastrar no CadÚnico em Canoas, município vizinho de Porto Alegre. O cadastramento é essencial para que pessoas atingidas possam ter acesso aos benefícios do governo estadual e federal. “O jornalismo de impacto desempenha um papel crucial especialmente nesse momento em que milhares de vítimas da enchente buscam auxílio e informações confiáveis”, comenta Clara Aguiar na postagem.

Com o título “O passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as autoridades” (bit.ly/4bBFzls), o Intercept Brasil divulgou reportagem assinada por Paulo Motoryn e Marcelo Soares no dia 15 de maio revelando grave conflito de interesses: uma das empresas responsáveis pela manutenção do sistema de contenção de inundações de Porto Alegre tem, entre seus sócios, um ex-funcionário da prefeitura que, por dois anos, foi o responsável por sua fiscalização.

No dia 22 de maio, a Agência Pública divulgou a reportagem intitulada “Militares e políticos sem experiência estão à frente da Defesa Civil em cidades do RS” (bit.ly/3VkpXNQ), assinada por Rafael Oliveira, tendo, para isso, analisado o orçamento empenhado para a Defesa Civil por esses municípios e pelo estado nos últimos três anos. Os dados foram extraídos diretamente do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), abastecido pelos próprios governos estaduais e municipais.

As reportagens mencionadas são exemplos do conjunto da cobertura dos quatro veículos, que disponibilizam, em suas páginas, outros textos tão significativos quanto os acima citados.

A designação de imprensa/jornalismo tradicional, também chamada de convencional, faz referência aos grupos e empresas controladoras do setor no Brasil. Sobre o jornalismo independente, há inúmeras pesquisas que investigam o tema, sendo uma delas o trabalho de M. Silva (2017), que mapeia 30 iniciativas criadas entre 2013 e 2015 no Brasil, por ela denominadas novas experiências de jornalismo. Segundo a autora, as expressões geralmente aplicadas a esse tipo de iniciativa – jornalismo independente, jornalismo alternativo, mídia radical, mídia contra-hegemônica – não dão conta de toda a variedade de propostas que compõem tais iniciativas.

Este artigo toma o papel da imprensa tradicional/hegemônica como o de manutenção da ordem social e, em contrapartida, o da imprensa independente/alternativa/contra-hegemônica como o de crítica a esta ordem para a construção de outro modo de organização social. Os quatro veículos citados, em maior ou menor grau, explicitam essa perspectiva, e de forma concreta trazem ao fazer e ao discurso jornalístico um conjunto de temas, pontos de vista e fontes invisibilizadas ou negligenciadas no debate público.

Nesta direção, prestam-se ao exercício do direito à fala e à escrita muitas vezes proscrita na imprensa tradicional.

Idealizador da ideia do direito à cidade, Henri Lefebvre, em artigo no livro “Du Contrat de Citoyenneté”, publicado em 1990, lista o que nomeia como “Os novos direitos do cidadão”. Entre eles estão o direito à informação e o direito à expressão. Diz Lefebvre que um cidadão não deve nem pode ficar calado sobre o que o preocupa e que lhe diz respeito, mesmo que apenas indiretamente: “Isso é muito: todos os assuntos da sociedade preocupam todos os membros. Daí o direito de refletir, de falar, de escrever” (LEFEBVRE, 1990. p. 34).

É possível afirmar que no nascedouro da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul estão também esses direitos sufocados ou mal-ouvidos pelas autoridades hoje apressadas em se livrar de sua cota de responsabilidade. Que bom termos veículos como os quatro citados, entre outros, para trazer à tona fatos que, para essas autoridades, deveriam estar convenientemente esquecidos. Sobrevivem a duras penas e fazem jornalismo à altura desses duros tempos. 

Referências 

LEFEBVRE, HENRI et LE GROUPE DE NAVARRENX . Du Contrat de Citoyenneté. Paris: Editions Syllepse et Editions Periscope, 1990. 

SILVA, Mariana da Rosa. Tensões entre o alternativo e o convencional: organização e financiamento nas novas experiências de jornalismo no Brasil. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/185627. Acesso em: 28 maio. 2024. 

* Jornalista, doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio Ambiente


sexta-feira, 17 de maio de 2024

Catástrofe climática e o Jornalismo de Ocorrência em Santa Catarina

Capa do caderno do Grupo NSC


A proporção da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul provoca uma pergunta: como Santa Catarina se prepara, levadas em conta suas próprias características socioespaciais, para enfrentar as consequências das mudanças climáticas? Procura em vão quem busca respostas nos grupos de mídia do estado. Esses grupos, organizados em associações, tecem seus interesses com as estruturas do estado, irrigando-se de dinheiro público e privado para fazer cada vez menos jornalismo. 

Parte expressiva do que virou a dita cobertura jornalística no estado vive de divulgação de BOs, os Boletins de Ocorrência. É um Jornalismo de Ocorrências, em que inexistem conexões entre elas e outras noticiadas antes ou depois, desprezando a compreensão de que não basta, no processo de mediação jornalística, limitar-se a ininterruptamente noticiar fatos sem inseri-los na totalidade dos fenômenos dos quais fazem parte e que os explicam.

A catástrofe no Rio Grande do Sul foi capa, por exemplo, do caderno do Grupo NSC (11 a 17 de maio) em abordagem previsível, a solidariedade: 

A SOLIDARIEDADE CATARINENSE

Santa Catarina se une para ajudar as vítimas da catástrofe climática que devastou o Rio Grande do Sul, deixou mais de 100 mortos, milhares de desabrigados e centenas de cidades tomadas pela água.

Quem estuda análise de discurso sabe que os sentidos se movimentam. Por vezes, uma mesma palavra, por estar inserida em diferentes formações discursivas, pode significar diferente, como no caso da palavra "terra" no discurso de um sem-terra ou de um latifundiário. Em outras vezes, palavras diferentes podem ter o mesmo sentido por se inscreveram em uma mesma formação discursiva. Isso é ilustrativo na pesquisa de MARIANI (2001) sobre os sentidos da solidariedade na mídia impressa. Ela verificou que a palavra forma uma rede parafrástica (de paráfrases) que inclui “caridade", "ajuda” "filantropia", "novas faces do bem” e “mão estendida". Apesar de serem palavras diferentes, a autora observa que na mídia o que pode resvalar para a produção de diferentes eleitos de sentidos muitas vezes se fecha em sentidos atomizados, produzindo ilusões de consenso social (p. 43). 

De modo geral, as coberturas sobre o Rio Grande do Sul mostram a ação dos solidários e solidárias e a ininterrupta videoteca da tragédia cotidiana nas cidades gaúchas destruídas. Mas por que a catástrofe ocorreu na relação com sucessivos crimes ambientais? Quem são os responsáveis? Leitores, ouvintes e telespectadores não terão respostas satisfatórias nesses grupos de mídia.

Essa ausência, na perspectiva de Santa Catarina, grita em um exemplo impactante. Uma notícia de fevereiro passado no site do Tribunal de Contas de Santa Catarina revela que cerca de 3 mil áreas de 100 municípios do estado têm maior risco de deslizamentos de solo e de inundações (1). O levantamento realizado apontou o seguinte:

- ausência de órgãos de proteção e defesa civil formalizados em 13 deles

- ausência de Fundo Municipal de Proteção e Defesa Civil (Fumdec) em 49 municípios

- ausência de Plano Municipal de Contingência (Plamcon) em 34

- ausência de locais cadastrados para uso como abrigos em 31 cidades

- 79 não realizam exercícios simulados conforme o Plamcon, ou seja, apenas 19 realizam 

- ausência de canais de comunicação com as famílias que residem em áreas de risco em 55 municípios 

- 74 municípios com áreas de risco mapeadas afirmaram não possuir cadastro das famílias residentes em áreas de risco

- ausência de fiscalização periódica das áreas com riscos de desastres por 36 cidades

- 72 municípios disseram que o art. 42-A da Lei 10.257/2001 — Estatuto da Cidade — não foi observado na edição ou na revisão do Plano Diretor

A notícia foi reproduzida de forma protocolar em sites noticiosos de Santa Catarina. Os dados não mereceram investigação, e são ainda mais alarmantes quando associados a um fato divulgado no “SC em Pauta” em 22 de fevereiro de 2024: mesmo sendo um estado propenso a diversos eventos climáticos extremos, Santa Catarina não tem um quadro efetivo na Defesa Civil. O órgão é formado basicamente por comissionados, terceirizados e alguns servidores cedidos, sendo nomeados como cargo de confiança (2).

Estão aí aspectos da pauta até agora invisibilizada nesse Jornalismo de Ocorrências. E isso sem contar o papel de Santa Catarina na destruição da legislação ambiental federal, iniciada nos mandatos do governador Luiz Henrique da Silveira, analisada brevemente em artigo intitulado “Código Florestal Brasileiro e Código Ambiental de Santa Catarina: legislação a favor do lucro” (3). Assim como fez o Rio Grande do Sul, Santa Catarina alterou o Código Ambiental em 2009 e em 2022. Uma análise dos retrocessos do novo código pode se lida na página da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) (4).

O resultado dessas mudanças aparecerá. E pegará a população (e o jornalismo) de surpresa.

A SITUAÇÃO DA MÍDIA EM SANTA CATARINA

Não há um diagnóstico recente e público da mídia em Santa Catarina para permitir uma análise mais detalhada e de interesse para jornalistas, professores e estudantes de jornalismo e interessados no apagão de coberturas fundamentais para o estado. Uma parte do diagnóstico aparece em artigo de Giovanni Ramos e Magali Moser, de junho de 2023, intitulado “O triste fim dos três grandes jornais catarinenses” (5). Ele mostra como sucumbiram três marcas regionais históricas: Diário CatarinenseA Notícia e Jornal de Santa Catarina

Há um aspecto da realidade regional que merece pesquisa profunda: o montante de recursos públicos que jorra para a Acaert (Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão) e a Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina (Adjori-SC). A Acaert  representa 260 emissoras de rádio e 24 emissoras de televisão associadas, congregando 100% das emissoras comerciais e educativas de Santa Catarina. A Adjori tem 104 empresas jornalísticas associadas, circulando em praticamente todos os 295 municípios de Santa Catarina.

Entre 2017 e 2019, foi criada e vendida como a maior campanha social de Santa Catarina a campanha da Acaert JEITO CATARINENSE, que mobilizou milhares de catarinenses em torno dos conceitos básicos de “cidadania”. A iniciativa contou com a parceria de instituições públicas e privadas tendo com um dos temas principais, por exemplo, uma campanha A FAVOR DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA (6). A reforma perversa, no governo Bolsonaro, atendeu o interesse empresarial e tem seus efeitos apresentados em uma série de artigos disponíveis para consulta na internet.

Entre 2020 e 2022, a Acaert assinou convênio inédito com o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e o Tribunal de Contas, além da manutenção e aprimoramento do convênio com a Secom (governo do estado) e a Assembleia Legislativa (Alesc). Ou seja, há um enlaçamento da Acaert com todas as estruturas de poder do estado. 

Para compreender o tamanho desse enlaçamento, um exemplo foi a renovação, em 2020, do convênio Alesc e Acaert para divulgação de notícias do Legislativo em todas as emissoras de rádio e televisão do estado.

O contrato está disponível em link no final deste artigo (7). Ele não menciona valores, mas basta uma procura rápida no site da Alesc para localizar centenas de contratos. A palavra “rádio” traz 41 páginas com contratos (8). Algumas perguntas merecem resposta:

-Quanto somam os contratos ao longo de cinco anos de repasses para um convênio no qual a Acaert indica os beneficiários?

-Quanto a Alesc destina para veículos consolidados de mídia independente e fora da alçada da Acaert e da Adjori, como, em Florianópolis, por exemplo, o Portal Desacato e o Portal Catarinas?  

Ou o dinheiro que irriga Francisco para defender a Reforma da Previdência não irriga Chico para mostrar seus efeitos nefastos?

Além dessas indagações, seriam relevantes análises sobre o conteúdo do material produzido pela Alesc distribuído por essas rádios e sobre o conteúdo geral produzido por elas. Se existem, não foram localizados. Mas um rápido giro pelo noticiário revela que, do ponto de vista jornalístico, não respeitam sequer a regra mais básica do jornalismo liberal, que é “ouvir o outro lado”, cotidianamente criminalizando as lutas populares e sindicais. Estão aí temas gritando por pesquisas de mestrado e doutorado.

É importante destacar que os grupos de mídia de Santa Catarina também recebem recursos públicos vindos das prefeituras para divulgação dita institucional, montante igualmente desconhecido. 

Não nos enganemos. O cenário aqui esboçado é um projeto gestado e cuidadosamente mantido por quem lucra com a mentira, a ideologia e a desinformação. Resta-nos revelar o que se vê pelas frestas. E recordar das palavras do jornalista Marcos Faerman, sempre:

Manifesto de libertação da palavra. 

A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la. Esta linguagem não é uma fuga. É o único caminho para nos levar à débil captação de uma sociedade e de suas contradições. E da única coisa que interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.


Notas:

1-https://www.tcesc.tc.br/levantamento-do-tcesc-revela-que-municipios-catarinenses-com-areas-de-risco-de-deslizamentos-e

2-https://scempauta.com.br/2024/03/22/mp-pede-explicacao-sobre-servidores-da-defesa-civil-governo-pagara-gratificacao-a-quem-atuar-na-dc-ub-se-aproxima-do-pl-em-blumenau-entre-outros-destaques/

3-https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/rebela/article/view/2770

4-https://apremavi.org.br/mpsc-ajuiza-acoes-para-impedir-alteracoes-no-codigo-ambiental-de-sc/

5-https://objethos.wordpress.com/2023/06/15/o-triste-fim-dos-tres-grandes-jornais-catarinenses/

6-https://www.acaert.com.br/noticia/39317/acaert-lanca-campanha-em-favor-da-reforma-da-previdencia-no-estado-e-nos-municipios-catarinenses

7-https://spectro.alesc.sc.gov.br/contratos/contrato/2626/download

8-https://transparencia.alesc.sc.gov.br/contrato.php?pagina=1&ano=&numero_contrato=&objeto=&contratada=r%E1dio&cpf_cnpj=&status=&tipo_contrato_id=&modalidade_id=Todas&valor_min=&valor_max=


Referência:

MARIANI, Bethania. Questões sobre a solidariedade. In: ORLANDI, Eni P. (Org.). Cidade atravessada. Os sentidos públicos no espaço urbano. Campinas: Pontes, 2001.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Eduardo Leite e a hora dos culpados

“Não é hora de procurar culpados”, afirmou o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, em coletiva de imprensa no domingo, dia 5, ao lado de Lula e representante do poder legislativo, quando foram anunciadas medidas frente à catástrofe que se abate sobre o estado vizinho (1). O artigo explora elementos para compreender a voracidade do capital imobiliário, o papel de prefeitos e governadores e o que a mídia tem a ver com isso, para quando chegar a hora dos culpados (chegará?).

O resgate de um cavalo caramelo ilhado sobre um telhado virou símbolo da conta que o Rio Grande está pagando por décadas de descuido planejado contra a natureza. Mas há outro símbolo tão ou mais potente. Ele aparece em uma notícia publicada no site da Prefeitura de Porto Alegre. É uma foto (abaixo) que exibe 11 rostos sorridentes, entre eles o de Leite, do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, e do vice, Ricardo Gomes, no leilão da Bolsa de Valores de São Paulo ocorrido em 6 de fevereiro passado que confirmou investimento de R$ 350 milhões no Cais Mauá graças a uma parceria-público-privada (PPP) (2). A palavra que define o empreendimento é bem conhecida em Florianópolis, “revitalização”, e o projeto, também na foto abaixo, não é diferente das banalidades construtivas vendidas no litoral catarinense como excepcionalidades quando excepcional mesmo é a paisagem agora irreconhecível e prestes a ser privatizada. A imagem do projeto está em uma reportagem do Portal G1-RS publicada no final de 2021 saudando a iniciativa (3). O “Coletivo Cais Cultural Já” lançou nota criticando o leilão do Cais do Porto, defendendo proposta alternativa de promoção de atividades culturais sem necessidade de privatização da área (4). 

Extraído do site da Prefeitura de Porto Alegre


Extraído de reportagem do Portal G1-RS 


Lá em 2019, um artigo de Opinião no GZH assinado pelo arquiteto Anthony Ling, editor do site Caos Planejado, clamava: "Prefeito, derrube o muro da Mauá!" (5). Vale citar um trecho: “O risco que deve se levar em consideração é de uma lâmina de centímetros de água a cada meio século, dado que a chance de uma enchente como a de 1941 é de uma vez a cada 1,500 anos. Atingir a altura ainda maior do atual Muro da Mauá é próximo do impossível”. 

O muro da Mauá integra o sistema de proteção de Porto Alegre e foi construído depois da grande enchente de 1941. Várias reportagens nos últimos dias mostraram falhas no sistema, as quais, neste triste maio de 2024, pioraram a situação de Porto Alegre (6).

O papel da administração de Leite e Melo na catástrofe ainda está por ser contado, mas boas pistas aparecem em notícias no site da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), que completou 50 anos em 2021. Uma delas teve repercussão no combativo veículo de mídia independente Sul21, mostrando, por exemplo, que no primeiro mandato, em 2020, Leite aprovou na Assembleia Legislativa a Lei 15.434, chamada de "Novo Código Estadual do Meio Ambiente", suprimindo ou flexibilizando mais de 500 artigos e incisos do Código Estadual criado em 2000 e afrouxando regras de proteção ambiental dos biomas Pampa e Mata Atlântica (7). Essa é apenas uma das medidas do governador citadas na reportagem, todas com alto potencial de impacto ambiental negativo no estado. 

É neste quadro que deve ser lida a notícia no GZH segundo a qual empresários sugeriram a Leite buscar especialista em catástrofes para ajudar na reconstrução do estado (8). Segundo a notícia, tal especialista seria pessoa ou empresa, sendo citado o exemplo da reconstrução de New Orleans, nos Estados Unidos, depois da passagem do furacão Katrina, em 2005. Caso a ideia avance, sugeriram os empresários, seria constituída uma parceria público-privada (PPP) para executar o projeto, além de usar os recursos federais prometidos (8). Isso em um estado com várias universidades federais onde se acumulam pesquisas fundamentais para sinalizar outro caminho de reconstrução das cidades. Mas tragédias deste alcance sempre rendem grandes negócios e grandes parcerias.

Nos últimos dias, na maior parte da cobertura jornalística da mídia hegemônica, a que chega à maioria da população, a lógica operada é aquela apontada por Perseu Abramo em seu clássico texto “Padrões de manipulação na grande imprensa” (9):

1-Padrão de ocultação  um deliberado silêncio sobre determinados fatos da realidade.

2-Padrão de fragmentação – o todo real é estilhaçado, despedaçado, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, na maior parte dos casos desconectados entre si, despojados de seus vínculos com o geral, desligados de seus antecedentes e de seus consequentes no processo em que ocorrem, ou reconectados e revinculados de forma arbitrária e que não corresponde aos vínculos reais, mas a outros ficcionais, e artificialmente inventados.

3-Padrão da inversão – fragmentado o fato em aspectos particulares, todos eles descontextualizados, esse padrão opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial da outra realidade.

4-Padrão da indução – a hábil combinação dos casos, dos momentos, das formas e dos graus de distorção da realidade submete, no geral e no seu conjunto, a população à condição de ser excluída da possibilidade de ver e compreender a realidade real e a consumir uma outra realidade, artificialmente inventada.

Segundo Abramo, o jornalismo de radiodifusão (TV e rádio) adota ainda um padrão que se divide em três momentos básicos, como se fossem três atos de um espetáculo, de um jogo de cena:

1 – O Primeiro Momento, ou 1ª Ato, é o da Exposição do Fato. Submetido a todos os padrões gerais de manipulação, o fato é apresentado sob os seus ângulos menos racionais e mais emocionais, mais espetaculares e mais sensacionalistas. 

2 – O Segundo Momento, ou 2º Ato, é o da Sociedade Fala. As imagens e sons mostram detalhes e particulares, principalmente dos personagens envolvidos. Eles apresentam seus testemunhos, suas dores e alegrias, seus apoios e críticas, suas queixas e propostas.

3 – O Terceiro Momento, ou 3º Ato, é o da Autoridade Resolve. Se se trata de um fato “natural” (incêndio, tempestade, enchente), a autoridade anuncia as providências, isto é, as soluções já tomadas ou prestes a serem tomadas. Se se trata de fato social, a autoridade reprime o Mal e enaltece o Bem, e também anuncia as soluções já tomadas ou a tomar para as duas situações. Ou seja, tudo está se resolvendo. Não é preciso mudar o rumo.

Na atual enxurrada informativa sobre o horror no Rio Grande do Sul, raros e de baixa visibilidade e audiência serão os veículos a ligar os pontos para mostrar que a catástrofe não é “natural”. 

Tomara que os movimentos populares e sindicais do Rio Grande do Sul elaborem e distribuam aos milhares materiais impressos ligando os pontos e rompendo a lógica dos padrões apontados por Abramo. Não adianta desvendar esses fatos na internet. Como aconteceu com o Orkut, todas as postagens hoje fundamentais para compreender a catástrofe um dia virarão pó de algoritmos. A lembrança será a da Fúria da Natureza, e não a lembrança da Fúria dos que a destroem.

É nesse sentido que Eduardo Leite está certo. Não é preciso procurar os culpados.


Links: 

1-https://www.cartacapital.com.br/politica/nao-e-hora-de-procurar-culpados-pela-tragedia-no-rio-grande-do-sul-diz-eduardo-leite/

2-https://prefeitura.poa.br/gp/noticias/leilao-confirma-investimento-de-r-350-milhoes-no-cais-maua

3-https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2021/11/25/projeto-de-revitalizacao-do-cais-maua-e-apresentado-em-porto-alegre-veja-imagens.ghtml

4-https://www.brasildefators.com.br/2024/02/09/coletivos-lancam-nota-criticando-o-leilao-do-cais-maua-de-porto-alegre

5-https://gauchazh.clicrbs.com.br/opiniao/noticia/2019/04/prefeito-derrube-o-muro-da-maua-cjux1bhv0012501ro08y91nga.html

6-https://www.brasildefato.com.br/2024/05/06/falhas-na-manutencao-do-sistema-de-protecao-teriam-agravado-a-maior-inundacao-da-historia-de-porto-alegre

7-https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2024/05/tragedia-historica-expoe-o-quanto-governo-leite-ignora-alertas-e-atropela-politica-ambiental/

8-https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/marta-sfredo/noticia/2024/05/empresarios-sugerem-a-leite-buscar-especialista-em-catastrofes-para-ajudar-na-reconstrucao-do-rs-clvx2qjbt00e8011ht8q0yk5w.html

9-https://biblioteca.clacso.edu.ar/Brasil/fpa/20170912055155/pdf_1475.pdf



“Fala Campeche”, jornal a serviço da luta socioambiental em Florianópolis

Por Míriam Santini de Abreu - jornalista O colega jornalista Silvio da Costa Pereira, sabendo do trabalho que temos feito em prol da memória...