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Reprodução Brasil de Fato - Vitor Shimomura / Brasil de Fato |
Veículos independentes
como o Sul 21, Brasil de Fato RS, Agência Pública e Intercept Brasil, entre
outros, estão cumprindo um papel dos mais relevantes na cobertura da catástrofe
do Rio Grande do Sul. Os quatro operam à margem da mídia hegemônica, que se
refestela com recursos públicos e faz cada vez menos jornalismo. Os veículos
citados trouxeram ao debate fatos ignorados, ocultados ou mal divulgados pela imprensa
tradicional, mais preocupada em tentar blindar a incompetência de prefeitos e
do governador do estado. Entre esses fatos estão aqueles caros ao jornalismo
ambiental.
O Sul21, no dia 6
de maio, na reportagem intitulada “Tragédia histórica expõe o quanto governo
Leite ignora alertas e atropela política ambiental”, assinada por Luciano
Velleda, (bit.ly/3wRHDXE),
detalha as críticas de organizações não-governamentais ao governo do estado em
relação às mudanças no Código Estadual do Meio Ambiente e à iniciativas como a
construção de barragens em áreas de preservação da natureza.
O Brasil de Fato
RS tem publicado várias reportagens a partir da periferia de Porto Alegre,
ouvindo populações empobrecidas que perderam o pouco que tinham e enfrentarão
dificuldades inimagináveis para recompor o cotidiano. Uma delas foi a
reportagem intitulada “Em bairro 'esquecido' de Porto Alegre (RS), enchente faz
emergir solidariedade” (bit.ly/3wJ7otf), assinada por Murilo Pajolla e publicada
no dia 27 de maio.
Outra reportagem
do Brasil de Fato RS, intitulada “Com 180 mil pessoas atingidas pela enchente,
Canoas tem atendimento do CRAS interrompido” e assinada por Clara Aguiar em 21
de maio (https://abrir.link/gwxvN),
repercutiu e serviu de base para denúncia junto ao Ministério Público do Estado
do Rio Grande do Sul (MPRS). A repórter, em sua conta na rede social Instagram
(@claguiar), avalia a repercussão do relato sobre as dificuldades enfrentadas
pelas famílias vítimas da enchente ao tentarem se cadastrar no CadÚnico em
Canoas, município vizinho de Porto Alegre. O cadastramento é essencial para que
pessoas atingidas possam ter acesso aos benefícios do governo estadual e
federal. “O jornalismo de impacto desempenha um papel crucial especialmente
nesse momento em que milhares de vítimas da enchente buscam auxílio e
informações confiáveis”, comenta Clara Aguiar na postagem.
Com o título “O
passo-a-passo da inoperância no RS, segundo um dos responsáveis por alertar as
autoridades” (bit.ly/4bBFzls),
o Intercept Brasil divulgou reportagem assinada por Paulo Motoryn e Marcelo
Soares no dia 15 de maio revelando grave conflito de interesses: uma das
empresas responsáveis pela manutenção do sistema de contenção de inundações de
Porto Alegre tem, entre seus sócios, um ex-funcionário da prefeitura que, por
dois anos, foi o responsável por sua fiscalização.
No dia 22 de
maio, a Agência Pública divulgou a reportagem intitulada “Militares e políticos
sem experiência estão à frente da Defesa Civil em cidades do RS” (bit.ly/3VkpXNQ), assinada por
Rafael Oliveira, tendo, para isso, analisado o orçamento empenhado para a
Defesa Civil por esses municípios e pelo estado nos últimos três anos. Os dados
foram extraídos diretamente do Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do
Setor Público Brasileiro (Siconfi), abastecido pelos próprios governos
estaduais e municipais.
As reportagens
mencionadas são exemplos do conjunto da cobertura dos quatro veículos, que
disponibilizam, em suas páginas, outros textos tão significativos quanto os
acima citados.
A designação de
imprensa/jornalismo tradicional, também chamada de convencional, faz referência
aos grupos e empresas controladoras do setor no Brasil. Sobre o jornalismo
independente, há inúmeras pesquisas que investigam o tema, sendo uma delas o
trabalho de M. Silva (2017), que mapeia 30 iniciativas criadas entre 2013 e
2015 no Brasil, por ela denominadas novas experiências de jornalismo. Segundo a
autora, as expressões geralmente aplicadas a esse tipo de iniciativa –
jornalismo independente, jornalismo alternativo, mídia radical, mídia
contra-hegemônica – não dão conta de toda a variedade de propostas que compõem
tais iniciativas.
Este artigo toma
o papel da imprensa tradicional/hegemônica como o de manutenção da ordem social
e, em contrapartida, o da imprensa independente/alternativa/contra-hegemônica
como o de crítica a esta ordem para a construção de outro modo de organização
social. Os quatro veículos citados, em maior ou menor grau, explicitam essa
perspectiva, e de forma concreta trazem ao fazer e ao discurso jornalístico um
conjunto de temas, pontos de vista e fontes invisibilizadas ou negligenciadas no
debate público.
Nesta direção,
prestam-se ao exercício do direito à fala e à escrita muitas vezes proscrita na
imprensa tradicional.
Idealizador da ideia
do direito à cidade, Henri Lefebvre, em artigo no livro “Du Contrat de
Citoyenneté”, publicado em 1990, lista o que nomeia como “Os novos direitos do
cidadão”. Entre eles estão o direito à informação e o direito à expressão. Diz
Lefebvre que um cidadão não deve nem pode ficar calado sobre o que o preocupa e
que lhe diz respeito, mesmo que apenas indiretamente: “Isso é muito: todos os
assuntos da sociedade preocupam todos os membros. Daí o direito de refletir, de
falar, de escrever” (LEFEBVRE, 1990. p. 34).
É possível afirmar que no nascedouro da catástrofe que se abate sobre o Rio Grande do Sul estão também esses direitos sufocados ou mal-ouvidos pelas autoridades hoje apressadas em se livrar de sua cota de responsabilidade. Que bom termos veículos como os quatro citados, entre outros, para trazer à tona fatos que, para essas autoridades, deveriam estar convenientemente esquecidos. Sobrevivem a duras penas e fazem jornalismo à altura desses duros tempos.
Referências
LEFEBVRE, HENRI et LE GROUPE DE NAVARRENX . Du Contrat de Citoyenneté. Paris: Editions Syllepse et Editions Periscope, 1990.
SILVA, Mariana da Rosa. Tensões entre o alternativo e o convencional: organização e financiamento nas novas experiências de jornalismo no Brasil. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa Catarina, 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/185627. Acesso em: 28 maio. 2024.
* Jornalista,
doutora em Jornalismo, mestre em Geografia e especialista em Educação e Meio
Ambiente